Quando Adão e Eva comeram o fruto probido e tiveram consciência do bem e do mal, eles sentiram pela primeira vez a necessidade de se cobrir, pelo pudor de esconder os corpos nus.E até os dias atuais, nós continuamos nos cobrindo se não apenas por pudor, ora por proteção (para ter conforto e se proteger de lugares, animais e do clima), ora por adorno (para ser aceito socialmente, por uma expressão artística).
Cada ótica defende como sua a razão mais importante para tal fato. À luz da religião, o pudor foi o verdadeiro motivo. Para a ciência, o homem precisa de proteção e para a psicologia, ele quer ter diferenciação. Mas a verdade é que, a cada momento ou a cada indivíduo, uma razão se sobrepõe à outra.
Uma escolha nunca é somente uma escolha, ela carrega referências, que podem ser imagens que vemos diariamente, o repertório de vida de cada um ou ainda a influência de nossos pais ou outras pessoas e ela fala de nós para os outros antes mesmo de abrirmos a boca para dar bom dia. Todo dia todos passamos por esse estágio cada vez que escolhemos uma roupa do armário.
Consciente ou inconscientemente fazemos escolhas, e do mesmo modo, as pessoas nos interpretam através dessas escolhas. É inerente ao ser humano e em sua essência não tem a ver com preconceito, mas sim com reconhecimento e identificação. Não existe uma roupa “neutra”, isenta de símbolos, não existe a opção de não se comunicar. No passado, a forma como as pessoas se vestiam demonstrava desde o estágio de uma sociedade e distinção entre classes sociais e profissionais até o estado civil de um indivíduo. A classe inferior não tinha a opção de mudar visualmente, pois alguns estilistas da época se negavam a fazer roupas para quem não fosse da nobreza ou viesse por indicação.
Somente após a Revolução Francesa que a moda foi perdendo seu caráter elitista e se tornando (pseudo-) democrática. O acesso financeiro às grifes ainda é um fator limitante, mas não sua classe social ou profissional, mas ao mesmo tempo não prova que você tem ou não dinheiro ou poder.
Atualmente a forma como nos vestimos é mais livre, uma expressão (e extensão) de nossa personalidade. Ainda conseguimos falar dos hábitos de um grupo ou mensagem a ser passada pela forma como eles se vestem. É inevitável não julgar que um homem vestido todo de branco seja da área médica ou alguém com macacão laranja e vassoura não seja um gari, mas falamos muito mais de personalidade, o que coloca nossa vestimenta como objeto de estudo e subjetivação. Mas isso já é assunto para a continuação deste artigo.


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