domingo, 25 de abril de 2010

QUAL A SUA MISSÃO???


É realmente relevante pensarmos em qual é nossa missão de vida?
Será necessário alinhar nossa vida pessoal e profissional com nossa missão?
Isso faz diferença nos diferentes ambitos de nossa vida?
Essas são apenas algumas das questões com as quais devemos nos preocupar, no que tange a nossa missão. Falo de missão como algo forte, que nos impulsiona, mais do que vestir a camisa de uma empresa, seguindo seus valores, visão e missão. Refiro-me aqui, a sua missão pessoal, particular, única. Independente de questões místicas e religiosas, nossa missão é um norte, um guia que pode nos dar o caminho que vamos trilhar alinhados com todas as áreas da nossa vida.

Sua missão pessoal, seu estilo de ser, combinam com a vida que você tem e com
o contexto em que está?
Se não soubermos para onde desejamos ir, nem o vento mais favorável levará o nosso barco para porto algum. Agora mais algumas questões que nos ajudarão a refletir:
Porque acordo a cada manhã?
O que faz sentido em minha vida?
Você acorda todos os dias disposto para trabalhar e ser feliz? Por que? Para quê?

Parece obvio demais, mas continue se fazendo esses "ingênuos" questionamentos, e assim até que você chegue ao seu sentimento mais verdadeiro, profundo e motivador.
Digamos que chegou a uma conclusão sobre qual é a sua missão. Ok. Aí então, cabe observar se o caminho que está trilhando o conduz a essa missão.

As coisas da qual você participa, pessoas com as quais se associa, trabalho que realiza, os seus lazeres, escolhas pessoais, crenças, espiritualidade, te levam rumo a sua missão?

Pois acredite, que boa parte do stress e das doenças psicossomáticas, de nossos desequilíbrios emocionais, é proveniente de uma vida insatisfatória, sem sentido.
Algumas pessoas se deprimem nos fins de noite, aos domingos, quando ouvem a música de desfecho do FANTÀSTICO, pois significa que está na hora de dormir, já que na segunda-feira começa tudo de novo! É isso que queremos para nossas vidas?
Mais do que falarmos sobre política, educação, econômia e corrupção ou mensalão, que sem dúvida tem importância, estou falando do que cada um de nós está disposto a fazer consigo mesmo e com sua vida.
Precisamos parar de criticar os outros. Não conseguimos e nem temos o poder de mudar os outros. Podemos até ajudá-lo em certo sentido, a rever suas posições e opiniões na vida, mas para isso, precisamos entender que a mudança primordial que deve ser feita nessa vida, é em nós, de dentro para fora, isso é claro, se assim desejarmos. Devemos buscar coerência entre nosso discurso e nossa prática.
A partir daí, começamos a refletir sobre nós, nossa família, nossas relações, nossa comunidade, nossa sociedade.
Faça planos específicos para cada área de sua vida. Planos possíveis, positívos, com data de começo, meio e fim. Imagine os possíveis obstáculos que terá de enfrentar. Com isso, busque alternativas para driblá-los. E observe sempre se todos estes esforços estão alinhados áquela missão a qual conclusão você chegou.
Vale a pena refletir sobre sua missão pessoal de vida. Você pode construir a sua própria realidade, que depende em muito das suas escolhas. Não subestime seu potencial, faça a diferença. Lembre-se de que, assim como a paz, a felicidade não está fora de nós, ao contrário. Está tão internalizada que precisamos buscá-la com mais intensidade, trazendo-a para fora, vivendo cada minuto único de nossa vida.

sábado, 24 de abril de 2010

COMUNICAÇÃO EMOCIONAL

Qual o segredo de uma boa comunicação? Como dizer o que se quer sem gerar uma resposta negativa? Quais são os princípios da comunicação eficaz e que transmite a mensagem sem magoar?

Em um diálogo você pode ter toda a razão do mundo, porém, se não souber como usá-la, certamente á perderá. Aqueles que sabem utilizar as palavras certas podem quase tudo para alguém sem ofendê-la. Aqueles que detêm o conhecimento da comunicação emocional destacam-se pois, são verdadeiros, honestos consigo mesmo e com os outros e geram diálogos construtivos. A comunicação costuma ser a melhor ferramenta dos grandes lideres.
Primeiro é necessário compreender que não há relacionamento íntimo sem discussões. A ausência de discussão pode ser um sinal de distanciamento emocional. Discussão é como o atrito necessário para trasnformar uma pedra em cristal. Se usado demais desgasta, de menos não gera transformação nem intimidade. O ponto é aprender a se comunicar.
Existem 3 elementos que destroem uma boa comunicação. Estes quando utilizados, só dão á pessoa duas alternativas: ou se defender, ou atacar. Começa assim uma batalha. E em toda batalha, existem vencedores e perdedores. Pois este, não tem e nem deve ser o objetivo de nenhuma conversa. A conversa deve ser o atrito usado para polir, dar brilho e durabilidade as relações interpessoais .
O primeiro elemento que deve se evitado é Crítica. Diante da crítica, só resta ao sujeito um violento contra ataque. Isto quer dizer, que se há alguma queixa válida a ser feita, certamente diante de uma crítica ela não será ouvida. Diga o motivo da queixa, ao invés de desaprovar o caráter de alguém. É importante lembrar, que o caráter é algo que as pessoas sempre defenderão com unhas e dentes.
Omais importante deve ser o teu sentimento em relação ao fato ocorrido. Ao invés de dizer ao outro: "Você é um egoista, só pensa em você!", diga ao outro o quanto você sente esquecido e como isso te magoa.
Diante de um sentimento sincero, o outro tem mais chance de perceber o que a ação dele gerou e poderá melhor refletir sobre.
O segundo elemento é o Desprezo. Este pode ser o pior de todos. Além disso, desprezo e sarcasmo andam juntos. Uma cara de nojo ou uma ligeira risada, qualquer reação que deprecie o que o outro está falando atinge diretamente a possibilidade de uma resolução pacífica.
E o terceiro e ultimo elemento é o Contra Ataque. Uma pessoa magoada pelo desprezo, lança mão do contra ataque á outra parte, aumentando o tom das críticas. E numa escalada de ofensas, isso pode chegar ao limite da insuportabilidade destruindo a relação e gerando atitudes de rejeição. Este tipo de "vitória", deixa sempre uma das partes ferida, o que faz com que aumente o distanciamento emocional, tornando o convívio difícil, quando não impossível.
O primeiro passo para uma comunicação eficaz, é substituir o julgamento e a crítica pela descrição objetiva dos fatos. Quanto mais específicos e objetivos, maiores as chances do outro reagir de modo positivo e não reativamente.
A suspensão do julgamento é a chave para a comunicação saudável. Quando comunicamos nossos sentimentos no lugar das críticas, ninguém pode discutir. Não há como o outro se contrapor a um argumento seu, que expressa um sentimento que é seu e não uma crítica que fere o caráter dele. O outro até pode pensar que você não deveria se sentir assim, mas isso não cabe a ele julgar. Ao falar de mim, não critico nem julgo a outra pessoa. Simplesmente reafimo o que sinto e o que é importante para mim. Ser sincero e autentico com os próprios sentimentos. Esta é a honestidade que muitas vezes desarma o outro e gera a possibilidade de cooperação e entendimento.
A comunicação é geradora de muitos conflitos interpessoais. Mas, quando bem utilizada, pode pacificar muitas situações, criar relacionamentos mais íntimos, cooperativos e amorosos.

NOSSAS EMOÇÕES E POTENCIALIDADES

Segundo Daniel Goleman, somos movidos ao sentido da nossa existencia com base nas nossas emoções, pois, existe uma relação entre nossos sentimentos, caráter e valores morais.
Cada vez mais, nos deparamos com a seguinte questão: O que faz um sujeito diferente de sua realidade social, cultural e genética?
A partir daí, podemos exemplificar a força das emoções sobre o sujeito e o quanto ela é determinante na sua construção subjetiva.
Cada vez mais vemos a crescente potencialidade em sujeitos que se tornam ímpares frente ao contexto de que nasceram ou foram educados. Isso acontece por uma força de resistência que só é possível com a análise das emoções, o que neste caso requer um trabalho de autocontrole, um paradigma de valores e um foco de moralidade que se deseja alcançar como meta. O poder de resiliência que um sujeito pode aderir para lidar com o seu padrão de vidanão começa pela força externa, mas por um processo individual a ser desenvolvido, pela forma como ocorre a compensação do fator externo, e de sua influencia sobre si mesmo, junto ao que já se tem inserido em si. As nossas crenças primárias e as mais presentes são o suporte para como as emoções podem ser geradas em harmonia ou desarmonia com o que o contexto presente projeta sobre o indivíduo, o que torna o estudo das emoções algo ainda muito subjetivo, por elas serem expressas em ocasião e intensidade de modo em cada sujeito com a sua história, crenças e um trajeto de emoções que lhe são peculiares.
Esta força que permite estar ou não em harmonia com o seu contexto cotidiano, é o que se chama de inteligência emocional, adentrar em contato com as próprias sensações e emoções e filtrar como se pode entrar em equilíbrio e autocontrole nas próprias emoções. Só assim é possível harmonizar os seus próprios contextos de interatividade social, e alcançar uma empatia com os demais pertencentes ao seu contexto. Se o indivíduo não estiver em conflito consigo mesmo, ele consegue captar com mais clareza o que o outro expressa, ao invés de atuar em suas relações a partir de projeções conflituosas.
Ter o objetivo de uma autoanálise, abrange antes de mais nada, uma motivação para estar em sintonia com as próprias emoções. A aceitação e o reconhecimento das próprias falhas e virtudes, não apenas são válidos, mas também eficazes para alcançar um ponto de equilibrio e poder ter acesso a outras falhas e traumas, que se manifestam em inconscientemente.

quinta-feira, 22 de abril de 2010

RECOMEÇAR É PRECISO...

Olá, Amigos(as)!!!
É com alegria que venho á vocês anunciar, que após um longo período distante das publicações do VIVER REFLEXÕES, agora estou de volta. Espero a partir de agora mais do que nunca, poder compartilhar com vocês deste espaço de trocas e reflexões sobre assuntos diversos e que acima de tudo possa contribuir com nosso crescimento pessoal.
Conto com todos vocês para a divulgação e sugestões. Abraços á todos!!!


Não importa onde você parou... Em que momento da vida você cansou... O que importa é que sempre é possível e necessário "RECOMEÇAR".
Recomeçar e dar uma nova chance a si mesmo... renovar as esperanças na vida e o mais importante... Acreditar em você de novo!!!


Trecho do poema "Recomeçar", de Paulo Roberto Gaefke.

A CASA DENTRO DE NÓS...

Existe uma casa dentro de mim, de você. Talvez não seja uma casa dessas feitas de paredes, telhados, portas e janelas. Quem sabe apenas um lugar, uma vista de janela, um corredor, uma réstia de luz.
Sim, deve existir um canto ou uma construção erguida na sua memória. Uma espécie de país onde sua alma é cidadã, senhora, coisa natural como o rio, as árvores e as pedras desse mesmo lugar.
Existe um exílio para nossas almas. Uma porta secreta, um sótão, um vão por onde escapamos para descansar, recompor, curar. Existe um lugar onde a alma repousa sem vontade de eternidade e o coração aquieta sem pressa de morrer.
De todos os lugares por onde passei e vivi, ficou a casa da minha infância, uma casa feita de várias outras casas, pois a casa da nossa infância é feita de casa de pai e mãe, avô, tio, de sala de aula, de banco de igreja, de praça, de praia, de banho de rio e de uma infinidade de vislumbres, lembranças e flashes retidos na retina da alma e nos mármores da memória.
Dentro dela ecoam vozes e risos, silêncios e melodias, passos, suspiros e todo tipo de sussurro das histórias contadas, dos amores vividos, das rezas, das dores caladas, dos segredos expostos. Dentro dela encontro muitas vezes o fio da meada, a chave do enigma, a solução da charada. De lá, vêm minhas pequenas certezas, meu código genético, meu norte e para lá retorno sempre que me sinto estrangeira ou me estranho. Lá me aguardam pacientemente os medos primordiais, aqueles que ainda latejam e assombram e também minha inocência, intacta e poderosa. Lá, estão as pontas tristes dos laços partidos, as palavras duras proferidas e atiradas como pedra, lá estão todas as palavras de chumbo, caídas no chão e também as palavras mágicas, as senhas para a paz, as bênçãos e os acalantos, lá estão, soltas como anjos as palavras em forma de asas. Lá está a minha impotência de menina, incapaz de evitar mortes e desastres e também a vocação para ser feliz e cumprir o percurso irresistível do viver tal qual semente, riacho, passarinho. Lá estão meus olhos incapazes de traduzir absurdos e desatinos e também os meus olhos ávidos, ocupados com a transparência de tudo e com a percepção dos diminutos e corriqueiros milagres.
Lembro pouco da felicidade. Lembro pouco da tristeza. As coisas não tinham nome. Assim como a caridade e a loucura. Tudo era. Tudo estava lá, cabia, fazia parte. A vida era assim daquele jeito embolado entre luz e sombra, bem e mal, graça e pecado, viver e nascer. Não havia espanto ou escândalo, nem beatitude ou danação. A vida transcorria inteira sem véus nem vergonhas. Os acontecimentos eram despudorados, explícitos e a morte despida de mistérios. O céu existia, assim como o inferno. Essa era uma das certezas que tornavam tudo mais fácil.
Da casa da minha infância guardo mais que recordações, datas e fisionomias. Guardo mais que velhas fotografias, receitas ou objetos deslocados. O que ficou, e esse é o grande tesouro, foi o lugar dentro de mim. A sensação redentora de pertencimento, de ter raízes, identidade, de ter, como tudo que é vivo, um fio condutor que me antecede e me continuará.
Soube esta semana que demoliram a casa da minha infância. Sei que dentro de mim ela continua intacta. Somos uma estranha espécie de caramujo a carregar nossas invisíveis casas, castelos e templos. Somos viajantes precavidos, levamos conosco abrigo, terra natal e identidade, e assim evitamos o exílio, o desterro.
Lembro Mario Quintana que nunca deixou de correr pelos corredores da sua casa de menino e copio Mia Couto:
“O importante não é a casa onde moramos mas onde, em nós, a casa mora.”

SOLIDÃO É FUNDAMENTAL

Que me desculpem os desesperados, mas solidão é fundamental para viver.
Sem ela não me ouço, não ouso, não me fortaleço. Sem ela me diluo, me disperso, me espelho nos outros, me esqueço. Sem ela os silêncios são estéreis e as noites sôfregas, povoadas de assombramentos e desejos insaciáveis. Sem ela não percebo as saídas, os milagres, os espinhos.
Não penso solto, não mato dragões, não acalanto a criança apavorada em mim, não aquieto meus pavores, meu medo de ser só.

Sem ela sairei por aí, com olhos inquietos, caçando afeto, aceitando migalhas, confundindo estar cercada por pessoas com ter amigos. Sem ela me manterei aturdida, ocupada, agendada só para driblar o tempo e não ter que me fazer companhia. Sem ela trairei meus desejos, rirei sem achar graça, endossarei idéias tolas só para não ter que me recolher e ouvir meus lamentos, meus sonhos adiados, meus dentes rangendo. Sem ela, e não por causa dela, trocarei beijos tristes e acordarei vazia em leitos áridos. Sem ela sairei de casa todos os dias e me afastarei de mim, me desconhecerei, me perderei.
Solidão é o lugar onde encontro a mim mesma, de onde observo um jardim secreto e por onde acesso o templo em mim. Medo? Sim. Até entender que o monstro mora lá fora e o herói mora aqui dentro. Encarar a solidão é coisa do herói em nós, transformá-la em quietude é coisa do sábio que podemos ser.
Num mundo superlotado, onde tudo é efêmero, voraz e veloz a solidão pode ser oásis e não deserto. Num mundo tão volúvel, desencantado e ansioso a solidão pode ser alimento e não fome. Num mundo tão barulhento, egoísta, atribulado a solidão pode ser trégua e não luta. Num mundo tão estressado, imediatista, insatisfeito a solidão pode ser resgate e não desacerto. Num mundo tão leviano, vulgar, que julga pelas aparências e endeusa espertalhões, turbinados, boçais a solidão pode ser proteção e não contágio. Num mundo obcecado por juventude, sucesso, consumo a solidão pode ser liberdade e não fracasso.
Tempo e solidão são hoje os bens mais preciosos, o verdadeiro luxo.
Marque encontros com você mesmo. Experimente. Dê-se um tempo. Surpreenda-se. Solidão é exercício, visitação. É pausa, contemplação, observação. É inspiração, conhecimento. É pouso e também vôo. É quando a gente inventa um tempo e um lugar para cuidar da alma, da memória, dos sonhos; quando a gente se retira da multidão e se faz companhia. Quando a gente se livra da engrenagem e troca o medo de ser só pela coragem de estar só. Não falo de isolamento, nem ruptura ou apartamento. Adoro gente, mas mesmo assim, e talvez até por isso, preciso de solidão. Preciso estar em mim para estar com outros.
Ninguém quer ser solitário, solto, desgarrado. Desde que o homem é homem, ou ainda macaco, buscamos não ficar sozinhos. Agrupamo-nos, protegemo-nos, evoluímos porque éramos um bando, uma comunidade. Somos sociáveis, gregários. Queremos família, amigos, amores. Queremos laços, trocas, contato. Queremos encontros, comunhão, companhia. Queremos abraços, toques, afeto. É a nossa vocação. Mas, ainda assim, revendo o poeta, ouso dizer: é preciso aprender a estar só para se gostar e ser feliz.
O desafio é poder recolher-se para sair expandido. É fazer luz na alma para conhecer os seus contornos, clarear o caminho e esquecer o medo da própria sombra. Existem pensamentos, orações, sorrisos, encontros e realizações que só acontecem quando estamos a sós. Existem curas, revelações, idéias, lembranças que só podem vir à tona quando estamos sós. Mesmo os momentos compartilhados só serão inesquecíveis se uma parte nossa estiver inteiramente só para apreender tudo que apenas a nós se revelará e tocará.
Existe uma pessoa que só conhecemos se conseguimos ficar sós: nós mesmos!
Seja amigo da solidão. Aceite seus convites, passeie com ela, desmistifique-a. Não corra dela, não tenha medo. Desassombre-se. Ouse a solidão e fique em ótima companhia.

terça-feira, 20 de abril de 2010

NAVEGAR OU VIVER...

Este artigo, é baseado em dados de um trabalho de psicoterapia realizado durante 2 anos e meio, com uma jovem, na ocasião com 32 anos.
Passava horas na frente do computador, entre e-mails, orkut, jogos, pesquisas, compras, fotos e músicas. Brincava de estar ocupada, de ter amigos e emoções virtuais, de não sentir solidão.
Dizia-se conectada ao mundo, sabia de tudo mas tinha medo de desligar o monitor, dependia da luz azulada para orientar-se no apartamento vazio. Precisava dos alertas de que chegara uma mensagem ou que todo o conteúdo de um disco havia sido baixado. Sentia-se importante cada vez que isso acontecia. Acreditava-se popular por que tinha mil contatos na agenda e recebia dezenas de correios com arquivos, mensagens, correntes, piadas, fotografias, dicas e filosofias baratas. Repassava textos de autoria duvidosa, ajudava a propagar uma infinidade de erros poéticos, filosóficos e literários atribuindo à Legião Urbana versos de Camões, a Woody Allen citações de Nelson Rodrigues, ao Dalai Lhama pensamentos do Chico Xavier e a Drummond aforismos do Paulo Coelho, além de polir egos de autores anônimos, disseminando plágios, breguices e obviedades. Distribuía alarmantes notícias sobre o loteamento da Amazônia e sobre os inadmissíveis índices de alumínio, agrotóxicos, sódio, gordura trans, monóxido de carbono em tudo que se bebe, come e respira.

Disseminava o pânico ecológico com estudos e projeções apocalípticas. Denunciava abusos, discriminações e fraudes para depois respirar aliviada, incólume. Não filtrava, não criticava e, pior, acreditava em tudo, tal qual telespectador do Fantástico. “Se estava na rede” era verdade (lembra de quando se acreditava que “se deu no Fantástico”, era sério?). Vivia um frenesi apático e emburrecedor. Tudo por que a solidão era insuportável e o mundo lá fora assustador.

Por isso, passava horas digitando, copiando, anexando, encaminhando, fazendo downloads, cercada por amigos invisíveis, romances estéreis, sexo eletrônico, assuntos estratosféricos e disparatados como os camelos do Gobbi, os índices de Wall Street, o degelo do Ártico, as mulheres vítimas de mutilação na Somália, os escândalos do governo. Todas as misérias, espantos, tragédias e bobagens do mundo escondidas atrás da tecla enter. E ela, numa distância segura, confortável sentada na sua cadeira de design italiano, via o planeta desfilar, expor suas feridas e aberrações, protegida pela tela, pela tecla esc, pelo comando de excluir, deletar ou desativar.

E, por estar tão conectada a tudo, emocionava-se igualmente e na mesma intensidade com cães dançarinos, crianças famélicas, pores do sol deslumbrantes, orações lacrimosas, pingüins ressequidos, vítimas de calamidades, atentados terroristas. Tudo tinha igual impacto e apelo para seus olhos consumistas e sua consciência móvel, on line. Assistia com mórbida curiosidade e fugaz indignação às imagens de fetos em conserva nas prateleiras dos supermercados, às denuncias de violência doméstica, às condições desumanas dos campos de refugiados, aos arquivos do holocausto, aos sites de pedofilia.

Enfim, ela sabia de tudo e queria crer que vendo tudo de relance sentia todas as dores do mundo, todas as urgências, os abismos. Bombardeada por imagens, arquivos, relatos anônimos ela sentia mais que conexão, sentia uma compaixão, efêmera e dissociada, mas acreditava piamente na filosofia dominante na rede, sempre embalada por músicas e montagens bregas: uma mistura de máximas de pára-choque, budismo barato, clamor evangélico, auto-ajuda.

E então, movida por palavras de ordem e sentimentos nobres, ela enviava mensagens sobre a importância vital de ter amigos, a todos os seus mil contatos, repassava fotos de crianças seqüestradas, depositava centavos para ajudar em cirurgias caríssimas de algum carente da rede, votava sim ou não em referendos irrelevantes ou salvíficos com a mesma empolgação, pedia votos, denunciava corrupção, abraçava causas estrangeiras como o abandono dos gatos parisienses no verão, os direitos dos anões de circo e a questão dos ciganos nas ramblas de Barcelona. Curiosamente, todo e qualquer sentimento de solidariedade, revolta, graça e engajamento, desapareciam no momento em que teclava enviar e encaminhava a mensagem.
Na maioria das vezes toda essa exposição não servia para outra coisa senão para que ela rezasse agradecida por estar tão protegida, anestesiada e blindada pelo monitor. E, sem que perceba, vai crescendo dentro dela uma consciência cósmica delirante e patética só por que nas infinitas horas de solidão, sentada na sua cadeira giratória de couro alemão, ela clica e aciona o mundo como uma grande voyeuse: distante, pervertida, infantilizada na leitura do que vê, passeando pelas imagens impune e levianamente, como se estivesse num leilão, num shopping center, num super mercado, analisando se compra ou não, o objeto exposto na tela-prateleira-vitrine, seja ele tragédia, aberração, milagre, cultura, baboseira, utilidade pública, pornografia, informação.

Passava horas diante do computador enquanto a vida real, tangível e transformadora acontecia fora e não dentro da tela. O tempo voava mas ela não se importava por que era o passar do tempo que lhe interessava. Um passatempo para passar a vida. Navegava com voracidade compulsiva mascarando sua absoluta inapetência para o viver. E agora, me perdoem a brincadeira, a embaralhada e a licença, típicas da rede: para ela, nossa heroína nética,

“Navegar é preciso, Viver não é preciso.” (Fernando Pessoa ou Chico Buarque? Alguém dá uma “goolgada” para mim?)

segunda-feira, 19 de abril de 2010

ESPELHO, ESPELHO MEU! ESTE COMO O VEJO, SOU EU???

Parte importante do trabalho em Psicologia e Psiquiatria atualmente, é dedicado ao diagnóstico e a psicoterapia dos transtornos alimentares. A obesidade, bulimia nervosa, anorexia nervosa, o transtorno da alimentação compulsiva periódica e o overtrainning, constituem hoje um problema de saúde importante pela frequência, faixa etária atingidos e pelas consequências psicofísicas e sociais que determinam.
Suas causas são multifatoriais e de seu diagnóstico e tratamento participam médicos, psicólogos, nutricionistas e profissionais de Educação Física. Seus sinais e sintomas, de inicio, simples preocupações com a aparencia e o peso corporal, vão tomando espaço na vida dos indivíduos e restringindo seus relacionamentos. Surge a recusa dos alimentos, os vômitos induzidos, os exercicios físicos excessivos, o uso de laxantes, a burla das dietas, tristeza ou euforia, perfeccionismo e isolamento social.
A fome, comportamento instintivo ligado à preservação da espécie sofre com as alterações da saúde e percebê-la depende do grau de contato que temos com nosso corpo e com as sensações que dele provêem. A relação com a comida é constituída pela história pessoal, por experiências iniciais com figuras afetivas importantes, por hábitos e valores que o meio ambiente (entenda-se, família) pratica, ganhando assim status simbólico e refletindo a forma com o indivíduo se sente ou não alimentado pela vida.
Quando o alimento preenche necessidades emocionais ou frustrações e sentimentos mal interpretados, funciona com um sonífero a enterrar as questões cada vez mais no corpo dificultando sua compreensão. Os muito jovens, meninos e meninas são atingidos por estes transtornos em momentos que necessitam fazer escolhas existenciais importantes, lograr autonomia da casa paterna e ter consciência de impulsos e necessidades. A tarefa não é pequena para quem precisa dar conta das pressões por escolha vocacional tão exagerada em nossa sociedade hiperativa, da emergência da sexualidade e da vida em grupo.Trata-se de um momento de intensa vulnerabilidade onde é preciso estar relativamente em ordem emocionalmente para enfrentar as exigências que pertencer à "tribo" demanda.
É a imagem corporal o elemento que se altera nos principais transtornos alimentares. Definida por Paul Schilder em 1935 como o registro tridimensional que temos de nós mesmos, inclue a sensação e a imaginação do corpo tal como o experimentamos. Dito de outra forma, é o resultado de como fomos tocados, sustentados ou não, dos níveis de proximidade fisica e das doenças que tivemos. Tudo isso contribue para a forma como ME VEJO (e fui visto) e de como ME GOSTO.
Nossas experiências contribuem para a formação de "buracos" (vazios, inconsciências) ou enrijecimentos dos orgãos/partes do corpo no processo de constituição da imagem corporal. O corpo se contrae ou se expande na base da nossa psicologia, fisiologia e das trocas sociais prazeirosas ou despraseirosas que fizemos, se abrindo às milhares de possibilidades de movimentos mas também a formas particulares de imobilidade.
Quando a comida, aparência e o peso corporal tomam a vida de um individuo estamos diante de um transtorno da alimentação e é necessario tratá-lo através de medicamentos, dieta, atividades físicas adequadas e um cuidadoso e interessado processo psicoterápico que possa ajudar a traduzir o dilema vivido pelo indivíduo e pelos que o cercam. O grupo familiar, seu apoio e responsabilidade são fundamentais. Os valores que praticam, o grau de afetividade e o exame da suscetibilidade às aparências e preocupações com o consumo podem representar a base sobre a qual as transformações poderão ocorrer.Numa sociedade narcisista onde as pessoas dependem excessivamente umas das outras é facil ser pego pela armadilha da interrogação ansiosa do espelho da Branca de Neve. Nossa habilidade e libertação talvez esteja em formular a ela uma outra questão, outra resposta e surpreendê-la.
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Luciana da Silva