Passava horas na frente do computador, entre e-mails, orkut, jogos, pesquisas, compras, fotos e músicas. Brincava de estar ocupada, de ter amigos e emoções virtuais, de não sentir solidão.
Dizia-se conectada ao mundo, sabia de tudo mas tinha medo de desligar o monitor, dependia da luz azulada para orientar-se no apartamento vazio. Precisava dos alertas de que chegara uma mensagem ou que todo o conteúdo de um disco havia sido baixado. Sentia-se importante cada vez que isso acontecia. Acreditava-se popular por que tinha mil contatos na agenda e recebia dezenas de correios com arquivos, mensagens, correntes, piadas, fotografias, dicas e filosofias baratas. Repassava textos de autoria duvidosa, ajudava a propagar uma infinidade de erros
poéticos, filosóficos e literários atribuindo à Legião Urbana versos de Camões, a Woody Allen citações de Nelson Rodrigues, ao Dalai Lhama pensamentos do Chico Xavier e a Drummond aforismos do Paulo Coelho, além de polir egos de autores anônimos, disseminando plágios, breguices e obviedades. Distribuía alarmantes notícias sobre o loteamento da Amazônia e sobre os inadmissíveis índices de alumínio, agrotóxicos, sódio, gordura trans, monóxido de carbono em tudo que se bebe, come e respira.
Dizia-se conectada ao mundo, sabia de tudo mas tinha medo de desligar o monitor, dependia da luz azulada para orientar-se no apartamento vazio. Precisava dos alertas de que chegara uma mensagem ou que todo o conteúdo de um disco havia sido baixado. Sentia-se importante cada vez que isso acontecia. Acreditava-se popular por que tinha mil contatos na agenda e recebia dezenas de correios com arquivos, mensagens, correntes, piadas, fotografias, dicas e filosofias baratas. Repassava textos de autoria duvidosa, ajudava a propagar uma infinidade de erros
Disseminava o pânico ecológico com estudos e projeções apocalípticas. Denunciava abusos, discriminações e fraudes para depois respirar aliviada, incólume. Não filtrava, não criticava e, pior, acreditava em tudo, tal qual telespectador do Fantástico. “Se estava na rede” era verdade (lembra de quando se acreditava que “se deu no Fantástico”, era sério?). Vivia um frenesi apático e emburrecedor. Tudo por que a solidão era insuportável e o mundo lá fora assustador.
Por isso, passava horas digitando, copiando, anexando, encaminhando, fazendo downloads, cercada por amigos invisíveis, romances estéreis, sexo eletrônico, assuntos estratosféricos e disparatados como os camelos do Gobbi, os índices de Wall Street, o degelo do Ártico, as mulheres vítimas de mutilação na Somália, os escândalos do governo. Todas as misérias, espantos, tragédias e bobagens do mundo escondidas atrás da tecla enter. E ela, numa distância segura, confortável sentada na sua cadeira de design italiano, via o planeta desfilar, expor suas feridas e aberrações, protegida pela tela, pela tecla esc, pelo comando de excluir, deletar ou desativar.
E, por estar tão conectada a tudo, emocionava-se igualmente e na mesma intensidade com cães dançarinos, crianças famélicas, pores do sol deslumbrantes, orações lacrimosas, pingüins ressequidos, vítimas de calamidades, atentados terroristas. Tudo tinha igual impacto e apelo para seus olhos consumistas e sua consciência móvel, on line. Assistia com mórbida curiosidade e fugaz indignação às imagens de fetos em conserva nas prateleiras dos supermercados, às denuncias de violência doméstica, às condições desumanas dos campos de refugiados, aos arquivos do holocausto, aos sites de pedofilia.
Enfim, ela sabia de tudo e queria crer que vendo tudo de relance sentia todas as dores do mundo, todas as urgências, os abismos. Bombardeada por imagens, arquivos, relatos anônimos ela sentia mais que conexão, sentia uma compaixão, efêmera e dissociada, mas acreditava piamente na filosofia dominante na rede, sempre embalada por músicas e montagens bregas: uma mistura de máximas de pára-choque, budismo barato, clamor evangélico, auto-ajuda.
E então, movida por palavras de ordem e sentimentos nobres, ela enviava mensagens sobre a importância vital de ter amigos, a todos os seus mil contatos, repassava fotos de crianças seqüestradas, depositava centavos para ajudar em cirurgias caríssimas de algum carente da rede, votava sim ou não em referendos irrelevantes ou salvíficos com a mesma empolgação, pedia votos, denunciava corrupção, abraçava causas estrangeiras como o abandono dos gatos parisienses no verão, os direitos dos anões de circo e a questão dos ciganos nas ramblas de Barcelona. Curiosamente, todo e qualquer sentimento de solidariedade, revolta, graça e engajamento, desapareciam no momento em que teclava enviar e encaminhava a mensagem.
Na maioria das vezes toda essa exposição não servia para outra coisa senão para que ela rezasse agradecida por estar tão protegida, anestesiada e blindada pelo monitor. E, sem que perceba, vai crescendo dentro dela uma consciência cósmica delirante e patética só por que nas infinitas horas de solidão, sentada na sua cadeira giratória de couro alemão, ela clica e aciona o mundo como uma grande voyeuse: distante, pervertida, infantilizada na leitura do que vê, passeando pelas imagens impune e levianamente, como se estivesse num leilão, num shopping center, num super mercado, analisando se compra ou não, o objeto exposto na tela-prateleira-vitrine, seja ele tragédia, aberração, milagre, cultura, baboseira, utilidade pública, pornografia, informação.
Passava horas diante do computador enquanto a vida real, tangível e transformadora acontecia fora e não dentro da tela. O tempo voava mas ela não se importava por que era o passar do tempo que lhe interessava. Um passatempo para passar a vida. Navegava com voracidade compulsiva mascarando sua absoluta inapetência para o viver. E agora, me perdoem a brincadeira, a embaralhada e a licença, típicas da rede: para ela, nossa heroína nética,
“Navegar é preciso, Viver não é preciso.” (Fernando Pessoa ou Chico Buarque? Alguém dá uma “goolgada” para mim?)


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