domingo, 15 de março de 2009

MORTE: UMA EXPERIÊNCIA DE VIDA

Nada queremos saber sobre a morte, ela é o inominável e o inapreensível da experiência humana. É um tema que sempre suscita embaraços e desconfortos.
No inconsciente o homem se crê imortal. A morte é a etapa final do transcurso do tempo de uma vida. E o inconsciente não conhece o tempo nem a morte.
Mas Freud nos adverte ao final de seu texto Reflexões para os tempos de guerra e morte ( 1915 vol XIV), “se queres suportar a vida, prepara-te para a morte.” A morte está indissociada da vida e “a vida empobrece, perde em interesse, quando a mais alta aposta no jogo da vida, a própria vida, não pode ser arriscada” continua nos lembrando Freud em seu texto.
Em seu livro A negação da morte, Ernest Becker escreveu “a idéia de morte, o temor a ela, persegue o homem como nenhuma outra coisa: ela é um dos maiores incentivos da atividade humana”. Impulsionado pelo desejo de evitar a fatalidade da morte, de vencê-la, de dar maior significado para sua vida o homem projeta e realiza inúmeras coisas que o ultrapassam. Os feitos do homem são a sua condição de imortalidade, é pela sua obra que o homem supera a realidade da morte.
O homem vive sob o jugo de um paradoxo: possui uma identidade simbólica que o destaca nitidamente na natureza. Ele tem consciência de sua existência e de sua finitude. Está fora da natureza e ao mesmo tempo irremediavelmente dentro dela. Coloca a cabeça nas estrelas e, contudo está alojado em um corpo que arqueja para respirar, que lhe é estranho de muitas maneiras: que doe, sangra, definha e morre, que traz a morte como parte de sua biologia.
A ciência nos ensina que o temor da morte é uma expressão do instinto de autopreservação, que funciona como um impulso constante para conservar a vida e sobrepujar os perigos que a ameaçam. O medo da morte tem de estar presente por trás do funcionamento normal, com o fim do organismo proteger a própria existência. Por outro lado, esse medo tem de ser adequadamente suprimido para permitir que se viva com um pouco de conforto. Percebemos assim o paradoxo: o onipresente medo da morte bem como o esquecimento desse temor na vida consciente.
Seguindo Freud em seu dito “se queres suportar a vida, prepara-te para a morte”, somos orientados a nos desapegarmos das coisas, a fazermos o trabalho do luto. Nossa vida toda é um trabalho de luto; luto da infância, dos pais idealizados, das etapas vividas, de todas as perdas que o transcurso da existência nos impõe e por fim a preparação para o último luto, da própria vida.Mas o medo da morte não está posto para todos de igual modo. Sujeitos que tiveram más experiências primitivas ficam mais morbidamente fixados na angústia da morte. Uma criança que teve uma infância favorável desenvolve mecanismos mais adequados para lidar com dificuldades, perdas e consequentemente com a morte.
O irônico quanto à negação da morte, é que, o sujeito visando evitar a morte, o faz matando tanto de si mesmo e uma faixa tão grande de seu mundo de ação que ele na verdade se isola e diminui-se, ficando como se já estivesse morto. Inúmeros poetas nos contam que a pior morte é a que se vive em vida.A morte na culturaFreud escreveu em seu artigo Além do princípio do prazer (1920) que a noção de morte natural é inteiramente estranha às culturas primitivas; elas atribuíam a morte à influência de um inimigo ou espírito mal. Na realidade todos os homens opõem-se à idéia de que a vida pulsional sirva para ocasionar a morte; que ela trabalhe para garantir que o organismo seguirá seu próprio caminho em direção a uma morte mais natural possível.
Em “Reflexões para o tempo de guerra e morte” ele escreve que apesar de parecer óbvio ser a morte o resultado da vida e que cada um deve à natureza uma morte, natural, inegável e inevitável, isso não ocorre. Ao contrário, a tendência é de negá-la, silenciá-la, colocá-la de lado, eliminando-a da vida.
A tendência é pensar a morte como fortuita, decorrente de acidente, doença, idade avançada. Nós só conseguimos lidar com a morte natural transportando-a para a velhice. E a conjunção de morte e velhice desloca a morte para um futuro sempre incerto e imaginariamente sempre longe e no qual não nos vemos. E dessa forma conjugando morte e velhice se imputa a essa última todo o horror com conseqüente medo e negação.
Morte e luto, fracasso e perda, fazem parte da estrutura da vida e, portanto acompanham o sujeito. Por paradoxal que seja, porque há morte é que sabemos da vida, a vida transita pelo desamparo e é diante da eminência da morte que a ela recupera seu pleno sentido.
Estamos sempre associando velhice e morte. É inegável que à medida que a velhice chega, o sujeito passa por inúmeras perdas. Para muitos não é fácil reinventar a vida após certa idade quando vários laços foram desfeitos. Mas a saída é o trabalho do luto. Luto que cada um deve fazer inclusive de si mesmo, além do luto pela perda dos objetos. Alguns tentam resolver com ódio, com lamentação e queixa. Ainda que a lamentação faça parte do luto, é preciso concluí-lo. Luto e vida andam juntos, não é possível andar pela vida sem passar pelo luto e a fuga dele acaba impedindo o movimento da vida. Mesmo que o sofrimento seja inevitável a esse processo, suportar que algo falte permite ao sujeito construir respostas mais inventivas em torno dessa falta, extraindo dela um saber sobre si mesmo.
Suportar que algo falte, é a grande questão diante do luto, da morte. Os rituais foram elaborados para auxiliar o homem nesse processo.
Maud Mannoni cita em seu livro O nomeável e o inominável uma vasta pesquisa realizada por Philippe Áries em O homem diante da morte que explica as mudanças de atitude da sociedade diante desse acontecimento. Ele escreve que na Idade Média a morte dava como que um aviso prévio e as pessoas eram simplesmente observadores dos sinais sobre si mesmas. Quando chegava a hora, morriam exatamente como era preciso. Não havia recursos para fazer frente à morte. No século XVIII e até mesmo no início do século XIX, morria-se em público, a casa era aberta a todos. Era costume que os amigos, vizinhos, padres viessem assistir o moribundo.
O homem sabia que ia morrer e preparava-se para isso. Os testamentos com freqüência eram testamentos místicos, onde o homem dizia um trajeto de uma vida e o que a morte lhe remetia. Uma tradição se transmitia assim, da vida além da morte, para uma geração seguinte. Os túmulos tinham como função impor a recordação de uma vida à posteridade.
Na contemporaneidade os ritos da morte são simplificados e os avanços da ciência empurram a morte cada vez mais para longe da existência do homem. A morte não é mais vista como fazendo parte da vida e seu insondável mistério banalizado. A ciência resiste à morte tanto quanto o profissional se sente impotente diante dela na relação com o paciente.O doente terminalComo lidar com doente para quem a ciência já não tem mais recurso?O paciente marcado por uma doença incurável ou em fase terminal, convoca o profissional da área de saúde e também seus familiares a se portar diante da morte. Como lidar com essa experiência, como ajudar essa pessoa, o que fazer nesse momento em que parece que não há mais nada que possa ser feito? Ainda que a existência autônoma esteja comprometida, até mesmo quanto à dignidade da existência, há ali um sujeito. O cuidado, a realidade que lhe é propiciada, faz surgir nele uma dimensão tranqüilizadora ou de desamparo.
Nessa relação todos os “pequenos nadas” que dão à vida seu sal constituem uma dimensão essencial: um olhar, uma palavra amiga, um gesto de carinho, uma pequena atenção. O que mantém vivo, “com vida”, uma pessoa nessas condições é a afeição, a ternura, o aconchego no qual possa haver a presença de alguém que o reconheça, que o escute, que o acolha. O cuidar vai além do atendimento às necessidades básicas do sujeito, é um exercício de respeito, de amor e compaixão. Tão mais importante quando privilegia os momentos em que esse doente pode se expressar como sujeito. Ele sabe quando lhe faltam com respeito, quando insistem em procedimentos que ele recusa. Os procedimentos que podem ajudá-lo devem ser tentados, mas que se discuta com ele sua posição e escolha.
É muito penoso para o doente que está ficando cada vez mais dependente ter a impressão que está perdendo seu estatuto de sujeito. Até o final da vida persiste sua sensibilidade aos efeitos de uma fala. E diante do inevitável o maior consolo talvez seja poder fazer um balanço positivo da vida que se está prestes a deixar.
Retornamos assim ao ponto de onde partimos: é a maneira como vivemos que nos prepara para morrer. Ou, como transmitiu Sêneca: "Deve-se aprender a viver por toda a vida e, por mais que tu talvez te espantes, a vida toda é um aprender a morrer".

RELACIONAMENTO MATERNO

Cada pessoa, à medida que vai crescendo, tem de assumir a própria vida. Ser adulto significa se desvencilhar das outras pessoas e ser responsável pela própria existência. Normalmente isso não ocorre na relação com a mãe. As pessoas, apesar da idade avançada, continuam dependentes da mãe em todos os sentidos, mas principalmente do ponto de vista emocional. Com isso, começam os conflitos.
As mães, na maioria das vezes, superprotetoras e dominadoras, tratam os filhos adultos como se fossem crianças: interferem na vida deles, continuam exigindo obediência e se sentem no direito de controlá-los. Os filhos, por seu lado, como não crescem emocionalmente, continuam a ver a figura materna com um olhar infantil, cheios de culpa e de pena.
A partir de certa idade, qualquer pessoa tem necessidade de ser livre, autônoma e escolher os próprios caminhos na vida e, quando seus desejos não coincidem com os da mãe, como é o caso da leitora, começam as brigas, hostilidades e a convivência se torna insuportável. O relacionamento de uma filha de 35 anos, mesmo morando e dependendo financeiramente da mãe, tem de ser um relacionamento de dois adultos. Duas pessoas independentes psicologicamente, que podem ter uma relação de amizade, cooperação e auxílio mútuo. Uma roupa que se usava na infância com certeza não serve mais quando nos tornamos adultos e nossas relações devem ir mudando à medida que avançamos na vida.

ESTUDO INDICA FATORES DE RISCO PARA DEPRESSÃO MATERNA

Na gestação, os fatores de risco são: estar grávida pela primeira ou segunda vez e não desejar a gestação. Já na depressão pós-parto, os fatores são: não ter religião, ter um companheiro desempregado, entre outros.
Uma dissertação de mestrado defendida em novembro na Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto (EERP) da USP mostra os fatores de risco para a ocorrência de depressão durante a gravidez e o pós-parto.
Na gestação, os fatores de risco são: estar grávida pela primeira ou segunda vez e não desejar a gestação. Já na depressão pós-parto, os fatores são: não ter religião, ter um companheiro desempregado, ter tido depressão na gestação, não receber suporte do Sistema Único de Saúde (SUS), não receber ajuda para cuidar do recém nascido e não receber ajuda do companheiro.
"A gestação e o pós-parto são os períodos da vida da mulher em que ela mais sofre de depressão", explica Valéria Feitosa, autora da pesquisa e enfermeira especialista em psiquiatria. "A rotina da mulher muda, muitas vezes ela não tem condições financeiras ou apoio da família. E ainda há as dificuldades com os hormônios" .
Das 47 mulheres pesquisadas, 43% tiveram depressão durante a gestação e 30% durante o pós-parto. O levantamento foi feito com mulheres de baixa renda de uma maternidade em Uberaba (MG), e, segundo a pesquisadora, os dados refletem a realidade do País.
O professor da Jorge Luis Pedrão, da EERP, orientou o estudo. Para chegar às informações, a pesquisadora comparou informações dadas pelas mães com dados médicos. Durante a gestação e pós-parto, as mulheres responderam dois questionários sobre sua situação sócio-econômica e de saúde, e sobre a saúde do bebê. A pesquisadora entrevistou as mulheres para saber se elas recebiam ajuda nas tarefas diárias e tinham apoio emocional e perguntou se eram bem tratadas pelo SUS. Por fim, Valéria pediu para as mulheres preencherem dois questionários que avaliavam se elas tinham ou não depressão, e a intensidade da doença.
A pesquisa aponta que as gestantes com depressão apresentaram menos problemas na gestação e seus filhos nasceram com melhores pesos e estaturas. Elas também alimentavam seus filhos de forma mais apropriada à idade. Para a enfermeira, as gestantes com depressão mais leve ficariam mais ansiosas, o que as levaria a visitar mais vezes o médico. Por outro lado, as mulheres com depressão na gestação fizeram mais cesáreas e partos com maior duração. Elas e seus filhos tiveram mais doenças. Todas as gestantes que não desejaram a gravidez tiveram sintomas de depressão durante a gestação, mas não depois do parto.
A depressão durante a gestação também foi mais freqüente do que no pós-parto. "Talvez isso aconteceu porque ainda não existe uma lista de perguntas específicas para depressão durante a gestação. Mas já existe uma para depressão pós-parto." O estudo também revelou que não receber apoio do SUS e do companheiro são fatores de risco para depressão. As mulheres depressivas faziam todas as consultas sozinhas. Por outro lado, as mulheres que diziam receber apoio do sistema de saúde adoeciam menos de depressão.
A pesquisadora afirma que é fácil identificar paciente em situação de risco, pois os hospitais costumam pedir as informações necessárias. Porém, os profissionais de saúde não as usam para prevenir ou tratar a depressão. "Para minha surpresa, muitas pacientes me ligavam para chorar. Elas procuravam o sistema de saúde e as pessoas achavam que era bobeira ou mentira", ressalta. Para mudar esse quadro, Valéria sugere que os médicos utilizem as escalas de medir depressão, façam grupos de acolhimento para as pacientes doentes e encaminhem as gestantes para profissionais especializados em saúde mental. "O assunto daria uma outra dissertação. Mas, para começar, essas soluções já estariam de bom tamanho".



Fonte: Agência USP

MUDANÇAS NA SOCIEDADE ATUAL E A DISSOLUÇÃO DO NÚCLEO FAMILIAR

Assistimos hoje a um acontecimento que talvez não tenha precedente na história, que é a dissolução do grupo familiar. Pela primeira vez a instituição familiar está desaparecendo, e as conseqüências são imprevisíveis. Impressiona-me que os sociólogos e antropólogos não se interessem muito por esse fenômeno.
Nesse processo, podemos constatar que o papel de autoridade do pai foi definitivamente demolido. Antes, o menino tinha na figura do pai um rival e um modelo. Um rival que despertava nele o gosto pela competição e um modelo na busca do prazer sexual.
Já para a menina, tratava-se de um homem em quem ela procurava se completar. Hoje, com o declínio da figura paterna, nossos jovens podem estar menos propensos a batalhar pelo sucesso, a estabelecer um ideal de vida.

Jovens no divã
Fico surpresa quando constato que, se há uma clientela interessada e engajada na psicanálise hoje em dia, é a dos jovens dos 18 aos 30 anos. Eles não procuram o psicanalista pelo fato de reprimirem seus desejos, mas porque não sabem o que desejam.
É uma situação totalmente original em relação a Freud. Antes, a pessoa recorria à psicanálise porque não ousava realizar seus desejos. Hoje, principalmente no caso dos jovens, é por não saber o que desejar. Isso acontece porque nossos jovens foram criados em condições que promovem a busca rápida do prazer máximo e sem obrigações. O problema é que essa forma de lidar com o desejo produz situações de dificuldade para os jovens. Isso os leva ao divã.

Busca do prazer
Muitos jovens encontram dificuldade para desenvolver plenamente uma vida sexual. Isso parece paradoxal, porque hoje em dia o sexo é muito acessível. Mas na verdade essa facilidade leva à busca de uma vida sexual sem compromisso, que proporcione um prazer ocasional, como o cinema, a bebida ou a dança. Há aí uma mudança interessante, talvez uma tentativa de se proteger em relação ao compromisso que uma vida sexual pode evocar.A idéia é aproveitar sem se engajar, mas isso impõe uma questão: eles aproveitam plenamente?
Esse é o fenômeno da nova economia psíquica. Ele é fundado sobre o princípio da busca imediata de prazer máximo, sem freios nem restrições. Esses momentos de prazer, que proporcionam uma satisfação profunda, são vividos, mas não organizam a existência, nem o futuro. Ou seja, a existência é feita de uma sucessão de momentos sem nenhuma projeção no futuro, de momentos que podem desaparecer porque não terão continuidade.
Existência virtual
O mundo virtual proporcionado pela internet faz sucesso por se tratar de um mundo lúdico. É um mundo coerente com a maneira de viver dos jovens, não exige engajamento nem compromisso. Ali qualquer um pode viver uma série de vidas sucessivas sem nenhum compromisso definitivo. As pessoas querem se distanciar da realidade não porque ela seja assustadora ou sem-graça, mas porque ela implica sempre um limite.Além disso, a realidade requer uma identidade, um objetivo mais ou menos claro na vida, ao passo que esses exercícios virtuais não pressupõem nenhuma identidade, nenhuma perspectiva e ainda derrubam todos os limites, incluindo os do pudor e da polidez.
Terapias breves x Psicanálise
A psicanálise não busca nenhum tipo de cura, não se propõe a isso. Está, portanto, na contramão da medicina, cuja história é rica em experiências baseadas na cura, com métodos variados. Alguns desses métodos, até pelos efeitos de sugestão, não são ineficazes. Mas é preciso saber se nós preferimos os métodos fundados sobre a sugestão ou se consideramos que é melhor privilegiar a livre atitude e o pensamento de cada pessoa, e assim estimular nela sua autonomia de julgamento. Nos períodos de crise moral, como o atual, proliferam os métodos que prometem a cura. Aos que escolhem esse caminho, só me resta desejar boa sorte.

domingo, 1 de março de 2009

JEITO DE AMAR - ADÉLIA PRADO


Texto de: Adélia Prado
Recebido por e-mail

Uma personagem põe-se a lembrar da mãe, que era danada de braba, mas esmerava-se na hora de fazer dois molhos de cachinhos no cabelo da filha, para que ela fosse bonita pra escola.

"Meu Deus, quanto jeito que tem de ter amor".

É comovente porque é algo que a gente esquece: milhões de pequenos gestos são maneiras de amar. Beijos e abraços são provas mais eloqüentes, exigem retribuição física, são facilidades do corpo.
Porém há diversos outras demonstrações mais sutis.
Mexer no cabelo, pentear os cabelos, tal como aquela mãe e aquela filha, tal como namorados fazem, tal como tanta gente faz: cafunés. Amigas colorindo o cabelo da outra, cortando franjas, puxando rabos de cavalo, rindo soltas.

Quanto jeito que há de amar!

Flores colhidas na calçada, flores compradas, flores feitas de papel, desenhadas, entregues em datas nada especiais: "lembrei de você".É este o único e melhor motivo para azaléias, margaridas, violetinhas.

Quanto jeito que há de amar!

Um telefonema pra saber da saúde, uma oferta de carona, um elogio, um livro emprestado, uma carta respondida, uma mensagem pelo celular, repartir o que se tem, cuidados para não magoar, dizer a verdade quando ela é salutar, e mentir, sim, com carinho, se for para evitar feridas e dores desnecessárias.

Quanto jeito que há de amar!

Uma foto mantida ao alcance dos olhos, uma lembrança bem guardada, fazer o prato predileto de alguém e botar uma mesa bonita, levar o cachorro pra passear, chamar pra ver a lua, dar banho em quem não consegue fazê-lo só, ouvir os velhos, ouvir as crianças, ouvir os amigos, ouvir os parentes, ouvir.

Quanto jeito que há de amar!

Rezar por alguém, vestir roupa nova pra homenagear, trocar curativos, tirar pra dançar, não espalhar segredos, puxar o cobertor caído, cobrir, visitar doentes, velar, sugerir cidades, filmes, cds, brinquedos, brincar...

Quanto jeito que há!

Há quem proteja o ego trabalhando suas desculpas antecipadamente

Conclusão é de psicólogos que estudam o assunto.
Pesquisadores estudam comportamento do tipo desde 1978.






Benedict Carey Do 'New York Times'



Cada nota baixa em exames, prazo estourado e projeto fracassado oferecem a oportunidade de tentar novas desculpas. Houve uma explosão em casa. Um gato doente. Uma emergência no trabalho.
Isso para não falar no trânsito: se ele estivesse mais livre...
Esse tipo de conversa é tão familiar que a maioria das pessoas rapidamente o descarta, mesmo quando sai de sua própria boca.
Essa é uma razão pela qual os verdadeiros criadores da desculpa – e há milhões deles – não esperam o problema para praticar sua técnica. Eles a amarram cuidadosamente antes de buscar um objetivo ou apresentar um desempenho. Suas desculpas vem pré-anexadas: nunca ia às aulas. Estava de ressaca na entrevista. Eu não tinha idéia do que era exigido na inscrição da faculdade.
"Isso é uma verdadeira autossabotagem, como beber pesadamente antes de uma prova, faltar aulas práticas ou utilizar equipamentos muito ruins", diz Edward R. Hirt, psicólogo da Universidade de Indiana. "Algumas pessoas fazem isso demais, e muitas vezes não fica claro se elas estão inteiramente conscientes do que fazem – ou de seu preço."
Psicólogos estudam esse tipo de comportamento desde 1978, quando Steven Berglas e Edward E. Jones usaram o termo "autodeficiência" para descrever estudantes que, em estudo, escolheram tomar um remédio que lhes foi dito que inibiria seu desempenho numa prova (a droga era, na verdade, um placebo).
A compulsão vai muito além de uma mera diminuição de expectativas e tem mais a ver com a proteção da própria imagem do que com conflitos psicológicos enraizados no desenvolvimento precoce, no sentido freudiano. Pesquisas recentes ajudaram a esclarecer não só quem é inclinado à autodeficiência, mas também suas consequências – e seus possíveis benefícios.
Na concepção original, Berglas e Jones identificaram a autodeficiência em estudantes que receberam a informação de que haviam gabaritado um teste composto de perguntas impossíveis de se responder. Eles haviam "obtido sucesso" sem saber como ou por que. "Essas são as pessoas que escutam que são brilhantes, sem saber como essa inferência é produzida", diz Berglas, hoje treinador executivo na região de Los Angeles. Ele conta que compreendeu o impulso; ele mesmo experimentou drogas pela primeira vez no colegial justo antes de fazer o SAT (exame educacional padronizado dos EUA), no qual esperava-se que ele obtivesse um resultado perfeito – uma façanha irresponsável que oferecia uma semente para a teoria.
A compulsão de atirar no próprio pé parece ser mais forte nos homens do que nas mulheres. Em pesquisas, Hirt e outros colegas mediram essa tendência ao pedir que as pessoas avaliassem em que grau uma série de 25 afirmações descrevia seu próprio comportamento – por exemplo, "Eu tento não me envolver muito intensamente em atividades competitivas para não me machucar muito, caso perca ou não me saia bem". Os homens tendem a obter pontuações mais altas nessas medições e, em estudos de laboratório, a colocarem obstáculos mais severamente.
Porém, dada uma oportunidade, e uma boa razão, a maior parte das pessoas alegará alguma deficiência. Em artigo publicado no último verão, Sean McCrea, psicólogo da Universidade de Konstanz ,na Alemanha, descreveu experimentos nos quais manipulava os resultados de participantes numa variedade de testes de inteligência. Em alguns, os participantes podiam escolher se preparar antes de realizar o teste ou podiam se juntar ao grupo "sem treinamento".
De forma bastante óbvia, McCrea descobriu que aqueles com notas baixas culparam a falta de treinamento, se pudessem, e que citar essa deficiência amortecia o golpe em sua autoconfiança.
Mas a deficiência também teve outro efeito. E outro experimento, participantes com boas desculpas para suas notas baixas – barulhos que distraíam, causados por fones de ouvido usados durante o exame – estavam menos motivados a se preparar para um teste subsequente do que aqueles sem desculpas. "A deficiência lhes permitia dizer, 'Considerando tudo o que passei, na verdade me saí bem'", disse McCrea, em entrevista por telefone. "E não há uma iniciativa para melhorar".
O constrangimento é, de alguma forma, a principal semente da motivação.
Como estratégia de curto prazo, a autodeficiência é muitas vezes mais que um exercício de autoilusão. Pesquisas com estudantes colegiais descobriram que os autodeficientes habituais – que cabulam muitas aulas; perdem prazos; não compram o livro indicado – tendem a se avaliar como dentro dos melhores 10% da classe, embora suas notas oscilem entre C e D.
Aqueles com bons resultados, apesar de seus flertes com a desordem, normalmente crescem cada vez mais admiradores da própria deficiência, seja ela a bebida, as drogas ou o desafio às regras.
"Com o sucesso, as expectativas sobem, e o comportamento torna-se mais extremo", diz Berglas, autor de "Reclaiming the Fire: How Successful People Overcome Burnout" (Random House, 2001).
No entanto, a tática não engana a todos. Em recente estudo, James C. McElroy, da Universidade Estadual do Iowa, e J. Michael Crant, da Norte Dame, fizeram com que 246 adultos avaliassem o comportamento de caráter em diversas anedotas de escritório. As opiniões dos participantes sobre um personagem começaram a azedar após a segunda vez em que a pessoa citou uma deficiência.
"Se você faz isso com frequência, os observadores atribuem seu desempenho a você, mas começam a ver tudo como parte de sua disposição, isto é, você é um reclamão", escreveu McElroy em mensagem de email. "Mas você pode evitar que isso aconteça se outra pessoa fizer a colocação de obstáculos por você, mesmo se fizerem isso muitas vezes."
Isso também é notório entre os bons criadores de desculpas: para melhores resultados, recrute um apologista.
O mais importante para alguns é que não importa o método para evitar considerar a explicação alternativa.
"É como a fala do velho filme de Marlon Brando, ‘Sindicato dos Ladrões’: ‘Eu poderia ter sido um competidor,’" disse Hirt. "No longo prazo, para algumas pessoas pode ser mais fácil viver com isso do que saber que fizeram seu melhor e fracassaram."

CHORAR NEM SEMPRE ALIVIA E TRAZ SENSAÇÃO DE BEM-ESTAR, DIZ ESTUDO.

Popularmente, lágrimas são tidas como essenciais para superar sofrimento. Pesquisa mostra que, na hora do 'vamos ver', nem sempre isso acontece.
Benedict Carey Do 'New York Times'


Elas são consideradas uma libertação, um tônico psicológico e, para muitos, um vislumbre de algo mais profundo: a linguagem própria do coração, a transpiração emocional do poço comum a toda a humanidade.
As lágrimas lubrificam músicas de amor e amores, casamentos e funerais, rituais públicos e dores particulares, e talvez nenhum estudo científico possa capturar seus vários significados.

"Choro quando estou feliz, quando estou triste, posso chorar quando compartilho algo de grande importância para mim", disse Nancy Reiley, 62 anos, que trabalha em um abrigo para mulheres em Tampa, na Flórida.

"E, por alguma razão, às vezes choro quando estou em uma situação em que tenho de falar em público. Não tem nada a ver com se sentir triste ou vulnerável. Não consigo imaginar uma razão pela qual isso acontece, mas acontece."

Agora, alguns pesquisadores afirmam que o conhecimento psicológico comum sobre o choro – chorar como uma catarse saudável – é incompleto e equivocado.

Ter um "bom choro" pode e geralmente permite às pessoas recuperarem algum equilíbrio mental após uma perda. Porém, não é sempre que isso ocorre, nem com qualquer pessoa, argumenta um artigo analítico na edição atual do "Current Directions in Psychological Science". Colocar tantas expectativas em um colapso banhado a lágrimas, na maioria das vezes, tende a deixar algumas pessoas, logo em seguida, em estado de confusão mental.

Problemas com estudos anteriores

Esse alerta para uma visão mais detalhada do choro deriva em parte de uma crítica feita a estudos anteriores. Durante anos, psicólogos confirmaram muitas observações comuns sobre o choro. Ele é contagiante. Mulheres irrompem em lágrimas mais facilmente e mais frequentemente que homens, por razões possivelmente tanto bioquímicas quanto culturais. A experiência física reflete a psicológica: os batimentos cardíacos se aceleram e a respiração se exalta durante a tempestade de lágrimas, para, logo depois, diminuírem gradualmente à medida que o cenário se tranquiliza. Quando questionada sobre episódios de choro, a maioria das pessoas, como era de se esperar, insistem que o ato de chorar serve para absorver um grande golpe, para se sentir melhor e até para pensar com mais clareza sobre algo ou alguém que elas perderam.

Pelo menos, essa é a forma lembrada por elas – e essa é a dificuldade, afirmou Jonathan Rottenberg, psicólogo da Universidade do Sul da Flórida e co-autor da análise. "Muitos dos dados apoiando o conhecimento convencional é baseado em pessoas relembrando o tempo passado", disse Rottenberg, "e estão contaminadas pelas crenças das pessoas sobre o que o choro pode fazer por elas."

Assim como pesquisadores descobriram que as pessoas tendem, com o tempo, a se lembrar seletivamente dos melhores momentos de suas férias (o bar da piscina e as baladas) e esquecer as dores de cabeça, o choro também pode parecer catártico em retrospecto. As memórias organizam os episódios misturados – as ocasiões quando o choro trouxe mais vergonha do que alívio, mais tristeza do que companhia.

Uma nova visão

Em um estudo publicado na edição de dezembro do "The Journal of Social and Clinical Psychology", Rottenberg, junto com Lauren M. Bylsma, da Universidade do Sul da Flórida, e Ad Vingerhoet, da Tilburg University, na Holanda, pediram a 5.096 pessoas em 35 países para detalhar as circunstâncias de seus episódios de choro mais recentes. Cerca de 70% dos participantes afirmaram que a reação dos outros ao seu colapso de lágrimas foi positivo, confortante. No entanto, cerca de 16% das pessoas citaram reações desagradáveis e raivosas que, como era de se esperar, geralmente as fazem se sentir piores.

Considerado o fato de que a função social mais óbvia do choro é ganhar apoio e empatia, o impacto emocional das lágrimas depende em parte de quem está por perto e o que eles fazem. O estudo descobriu que chorar com apenas uma pessoa presente tinha significativamente mais probabilidade de produzir um efeito catártico do que fazê-lo diante de um grande grupo.

"Quase todas as emoções são, em algum aspecto, direcionada aos outros, então a resposta deles é muito importante", explicou James J. Gross, psicólogo de Stanford.

A experiência do choro também varia de pessoa para pessoa, e algumas têm mais tendências a encontrar a catarse do que outras. Em estúdios em laboratório, psicólogos induzem o choro ao mostrar aos participantes pequenos trechos de cenas de filmes muito tristes, como "O Campeão" ou "Flores de Aço". Aqueles que entram em colapso – geralmente cerca de 40% das mulheres, muito poucos homens – depois relatam diretamente a experiência. Esse tipo de estudo, apesar de ser uma simulação da experiência vivida, sugere que as pessoas com sintomas de depressão e ansiedade não ficam tão emocionadas, nem se recuperam tão rápido, quanto a maioria das pessoas. A pesquisa também indica que essas pessoas têm menos probabilidade de relatar benefícios psicológicos resultantes do choro.

Confusão

Pessoas confusas quanto às origens de suas próprias emoções – uma condição, em casos extremos, chamada de alexitimia – também tendem a relatar poucos benefícios resultantes de uma explosão de lágrimas, descobriram estudos. Isso faz sentido. Um dos propósitos do choro pode ser bloquear o pensamento, para efetivamente vedar o fluxo de perguntas sem respostas que vem com qualquer grande perda, para melhor esclarecer aquelas mais importantes ou mais práticas. Se esse sistema psicológico já está atrapalhado, um rio de lágrimas provavelmente não vai melhorar a situação.

Em seu livro "Seeing Through Tears: Crying and Attachment", Judith Kay Nelson, terapeuta e professora em Berkeley, Califórnia, argumenta que a experiência de chorar está enraizada na infância primária e na relação da pessoa com seus primeiros responsáveis, geralmente um dos pais. Aquelas pessoas cujos pais foram atenciosos, confortando seu choro quando necessário, tendem a achar que o choro também as oferece consolo quando adultas. Aqueles cujos pais evitavam se envolver, se irritavam ou ficavam exageradamente angustiados com o choro da criança, frequentemente têm mais dificuldade de serem consolados quando adultos.

"Chorar, para uma criança, é uma forma de chamar a atenção do responsável por ela, de manter a proximidade e usar o responsável para regular o despertar de humor positivo ou negativo", disse Nelson, em entrevista por telefone. Aquelas pessoas que crescem sem ter a certeza de quando ou se esse conforto estará disponível podem, quando adultos, ficar presos no que ela chama de choro de protesto – os berros desesperados da criança por alguém capaz de consertar o problema, reverter a perda.

"Você não consegue superar a tristeza se está preso no choro de protesto, que se trata de consertar, desfazer a perda", disse Nelson. "Na terapia – assim como em relacionamentos próximos – o choro de protesto é muito difícil de confortar, porque não podemos fazer nada certo, não podemos desfazer a perda. Por outro lado, o choro triste que é um apelo pelo conforto de um ser amado é um caminho para a proximidade e a recuperação".

As lágrimas limpam, tudo bem. Mas, como um dilúvio, também podem fazer com que uma pessoa se sinta naufragada, encharcada.
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Luciana da Silva