
Luciana da Silva - Psicóloga
O que leva um rapaz de 22 anos a estragar a própria vida e a de outras duas jovens por... Nada? Será que é índole? Talvez, a mídia? A influência da televisão? A situação social da violência? Traumas? Raiva contida? Deficiência social ou mental? Permissividade da sociedade?
O que faz alguém achar que pode comprar armas de fogo, entrar na casa de uma família, fazer reféns, assustar e desalojar vizinhos, ocupar a polícia por mais de 100 horas e atirar em duas pessoas inocentes? O rapaz deu a resposta: 'ela *não *quis falar comigo'. A garota disse *não*, *não *quero mais falar com você.
E o garoto, dizendo que ama, não aceitou um *não*. Seu desejo era mais importante. Não quero ser mais um desses profissionais que infestam os programas de televisão, que explicam tudo de maneira muito simplista e falam descontextualizadamente sobre a vida dos outros .
Mas hoje, enquanto acompanhava mais um dos muitos programas de TV que veicularam, e o tem feito até agora com este assunto, não consegui me conter pensando que o *não* da menina Eloá foi o único em meio á todo este terror.
Faltaram muitos outros não's *nessa história toda.
Faltou um pai e uma mãe dizerem que a filha de 12 anos *NÃO *podia namorar um rapaz de 19.
Uma outra mãe dizer que *NÃO *iria sucumbir ao medo e ir lá tirar o filho do tal apartamento a puxões de orelha.
Outros pais dizerem que *NÃO *iriam atender ao pedido de um policial maluco de deixar a filha voltar para o cativeiro de onde, com sorte, já tinha escapado com vida.
Faltou a polícia dizer *NÃO *ao próprio planejamento errôneo de mandar a garota de volta pra lá.
O governo dizer *NÃO *ao sensacionalismo da imprensa em torno do caso, que permitiu que o tal seqüestrador conversasse e chorasse compulsivamente em todos os programas de TV que o procuraram.
Simples assim: N Ã O!
Pelo jeito, a única que disse *não *nessa história foi punida com uma bala na cabeça. O mundo está carente de *não's*.
Cada vez mais os pais e professores morrem de medo de dizer *não *às crianças.
Mulheres ainda têm medo de dizer *não *aos maridos ( e alguns maridos, temem dizer *não *às esposas ).
Pessoas têm medo de dizer *não *aos amigos.
Noras que não conseguem dizer *não *às sogras.
Chefes que não dizem *não *aos subordinados, gente que não consegue dizer *não *aos próprios desejos. E assim são criados alguns monstros.
Talvez alguns não cheguem a seqüestrar pessoas. Mas têm pequenos surtos quando escutam um *não*, seja do guarda de trânsito, do chefe, do professor, da namorada, do gerente do banco. Essas pessoas acabam crendo que abusar é normal, que é legal.
Os pais dizem, 'não posso traumatizar meu filho'. E não é raro eu ver alguns tomando tapas de bebês com 1 ou 2 anos. Outros gastam o que não têm em brinquedos todos os dias e festas de aniversário faraônicas para suas crias. Sem falar nos adolescentes. Hoje em dia, é difícil ouvir alguém dizer *não*:
Você *não *pode bater no seu amiguinho.
*Não*, você *não *vai assistir a uma novela feita para adultos.
*Não*, você *não *vai fumar maconha enquanto for contra a lei.
*Não*, você *não *vai passar a madrugada na rua.
*Não*, você *não *vai dirigir sem carteira de habilitação.
*Não*,você *não *vai beber uma cervejinha enquanto *não *fizer 18 anos.
*Não*, essas pessoas *não *são companhias pra você.
*Não*, hoje você *não *vai ganhar brinquedo ou comer salgadinho e chocolate.
*Não*, aqui *não *é lugar para você ficar.
*Não*, você *não *vai faltar na escola sem estar doente.
*Não*, essa conversa *não *é pra você se meter.
*Não*, com isto você *não *vai brincar.
*Não*, hoje você está de castigo e *não *vai brincar no parque.
Crianças e adolescentes que crescem sem ouvir bons, justos e firmes * NÃOS *crescem sem saber que o mundo *não *é só deles. E aí, no primeiro *não *que a vida dá ( e a vida dá muitos ) surtam. Usam drogas. Compram armas. Transam sem camisinha. Batem em professores. Furam o pneu do carro do chefe. Chutam mendigos e prostitutas na rua. E daí por diante.
Não defendo de modo algum, a volta da educação rígida e sem diálogo, ao contrário. Creio que crianças e adolescentes tratados com um amor real, sem culpa, tranqüilo e livre, conseguem perfeitamente entender uma sanção do pai ou da mãe, um tapa, um castigo, um *não*. Intuem que o amor dos adultos pelas crianças não é só prazer - é também responsabilidade.
E quem ouve uns *não's *de vez em quando também aprende a dizê-los quando é preciso. Acaba aprendendo que é importante dizer *não *a algumas pessoas que tentam abusar de nós de diversas maneiras, com respeito e firmeza, mesmo que sejam pessoas que nos amem.
O *não *protege, ensina e prepara. Por mais que seja difícil, eu tento dizer *não *aos seres humanos que cruzam o meu caminho quando acredito que é hora - e tento respeitar também os *não's *que recebo. Nem sempre consigo, mas tento.
Acredito que é aí que está a verdadeira prova de amor. E é também aí que está a solução para a violência cada vez mais desmedida e absurda dos nossos dias.


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