Talvez ainda tenhamos tempo para ser e para ser justos... Talvez entre o olvido e o apuro pouco antes de a verdade ser enterrada teremos a oportunidade de nossa morte e nossa vida para sair por ruas e mais ruas, de mar em mar, de porto em porto, de cordilheira em cordilheira, e sobretudo, de homem em homem, perguntando se a matamos ou foram outros que a mataram, se foram nossos inimigos ou nosso amor cometeu o crime, porque já morreu a verdade e agora podemos ser justos. Antes deveríamos lutar com armas de obscuro calibre e por ferir-nos esquecemos o porquê de estarmos lutando. Nunca se soube de quem era o sangue que nos envolvia, nós acusávamos sem parar, sem parar fomos acusados, eles sofreram, e sofremos, e quando já ganharam eles e também nós quando ganhamos a verdade tinha morrido de antigüidade ou violência. Agora não há o que fazer: todos perdemos a batalha. É por isso que eu penso, talvez, por fim pudéssemos ser justos ou por fim pudéssemos ser: temos este último minuto e logo mil anos de glória para não ser e pra não voltar.
Pablo Neruda


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