domingo, 7 de setembro de 2008

SINTONIZADOS COM A VIDA.

Luciana da Silva
Psicóloga_CRP: 06/73261

Um dos mais delicados dons que podem surgir de nosso interior é a sintonia. Com ela aprendemos a estar genuinamente presentes na vida.
Os contemplativos dizem que este momento, é o momento. Tudo o que realmente se tem é o agora. É o único ponto de ligação entre nós e a vida.
Muitos de nós não estamos realmente aqui. Estamos desconectados da vida que acontece agora. O passado e o futuro, por exemplo, são bons lugares para visitarmos através de nossa mente e imaginação. Á meu ver, reviver o passado é perder o presente.
Eu mesmo em muitos momentos, já me peguei frequentemente preocupada, porém, com o futuro, com onde e como eu passaria os próximos momentos e fases de minha vida. Projetava-me para um tempo não vivido, preparando-me para viver.
Nosso olhos ficam tão focalizados nos objetivos, que esquecemos de nos maravilhar com a presença de uma rosa.
Há uma frase que diz: "A vida é o que acontece e passa, enquanto você está fazendo outros planos..."
Essa idéia, traz-me de volta à realidade do momento e a refletir uma : O que faz você pensar que a vida acontece no palco do amanhã? Ela não é um ensaio. Ela é. Viva agora!
Gastamos muito mais tempo do que pensamos revivendo a história ou planejando o futuro. Isso é em parte importante, mas quando vivemos em tais reinos, investindo a maior parte de nossa consciência lá, não vivemos o momento presente de forma profunda. Perdemos contato com nós mesmos.
Depois de algum tempo, esse distanciamento cria uma sensação de aborrecimento psíquico, mesmo que vivamos uma vida agitada, com objetivos, cheia de gente, eventos e lugares. O aborrecimento vem da falta de sintonia e de uma desconexão com o lugar onde a vida é mais vital e real: o Agora.
O tempo não é uma linha reta por meio da qual viajamos, mas um ponto profundo onde habitamos. Pode ser difícil tentar relacionar-se com om tempo. Hoje em dia, ele exerce sobre nós uma pressão quase constante. Ele nos empurra; organizamos nossa vida de acordo com ele. Um dos grandes males de nosso tempo é a de viver de acordo com o tempo em vez de viver no tempo.
Há duas palavras para designar o tempo: chronos e kairos . Quando o chronos domina, vivemos de acordo com o tempo. A vida é vivida como uma cronologia, como algo que acontece em sequência. Essa é uma forma linear de pensar o tempo. Nosso coração, por vezes, entra nesse . Ora, se até dizemos que nosso coração "bate".
Por outro lado, quando é o kairos o dominante que designa nosso tempo, vivemos no tempo, em seu ponto profundo. A vida é vivida como oportunidade. O kairos é cheio de tempo, tempo verdadeiro. Ele exige que vivamos no tempo tão completamente que as possibilidades da vida abrem-se para nós.
A transformação emocional nos faz capazes de mudar de chronos para kairos. Passamos a tocar mais uma vez o imediato da vida. Entregamo-nos ao momento para descobrir o tesouro de ser.
No livro, "O abandono à Divina Providência, de Jean-Pierre de Caussade, ele diz que a missão mais importante da alma é procurar e aceitar o momento presente: "O momento presente está sempre fluindo com riquezas imensuráveis, muito mais do que você pode abarcar".

Seria a isso que Willian Blake se referia quando escreveu Profecias da Inocência?

"Para ver um mundo em um grão de areia
E o paraiso em uma flor silvestre
Guarde o infinito na palma de sua mão
E a eternidade em uma hora."

Existem três estágios na consciência contemplativa, ou sintonia. Primeiro ouvimos as palavras, mas não a melodia de uma música. Assim somos muitos de nós. Conseguimos compreender a exterioridade. Sabemos as respostas certas, as frases corretas, o comportamento apropriado e as palavras para a vida. Vivemos mecanicamente, escolhendo as palavras, desatentos à profundidade da melodia que flui interiormente. Nesse nível, estamos inclinados a viver de acordo com o tempo, tão espelhados em chronos que nem ao menos percebemos que existem kairos no mundo. Porém, ao ampliarmos nossa sintonia com a vida, passamos a ouvir as palavras e a melodia. Despertamos para as coisas íntimas, a vida interior, para a gloriosa canção da alma. Começamos a descobrir um novo horizonte de consciência que nos põe em contato com o aqui e agora. Paramos de vez em quando para ouvir a profunda música que toca dentro e em volta de nós.
Finalmente, no terceiro estágio de sintonia, nos tornamos a música. Ao entrarmos no nível mais profundo de sintonia, deixamos de ouvir a música e nos tornamos a música. Tornar-se música é o ápice do ser. Isso acontece quando existimos no agora com tal abertura e sinceridade que nos fundimos com o momento, com a presença escondida nele.
Assim, podemos passar pelos três estágios, de sintonia em uma única hora, ou nunca passar dom primeiro estágio por toda a vida. Há dias em que ouço apenas as palavras. Há dias em que ouço a música. Meus momentos de ser música, entretanto são raros. Quando experimentamos esses momentos, eles nos deixam com a sensação de que é assim que a vida deve ser.

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Luciana da Silva