Ser natural passou a não ser natural. Ser natural está em crise.Quanto mais civilizados estamos, menos somos naturais. Muito se fala em fórmulas naturais prá isso ou aquilo. Em época que mais se fala em natureza, mais distantes estamos dela, com seus segredos, processos, sua glória e crueldade.
Mil artifícios para ser mais alto, mais magro, mais liso, mais firme, mais louro, mais moreno, mais...
Mil artifícios para ser mais alto, mais magro, mais liso, mais firme, mais louro, mais moreno, mais...
Também as cabeças tem suas artimanhas para exercer o poder do pensamento, meditação de todos os tipos, cura pela mente, pensar positivo pode trazer fortuna, a tão sonhada "felicidade", casamento... E eu pergunto: o que mais?
Em toda sorte de relacionamentos e amores infiltra-se de um lado a conceitualização, e foge pelo outro, o bom senso. Também ou sobretudo na educação das crianças. Perplexos diante das mil teorias que nos batem à porta em toda a mídia, e a proliferação de consultórios com todo tipo de novas terapias - nem sempre fundamentadas - , estamos nos convencendo de que ter e criar filhos também não é lá tão natural.
Alimentados com duvidosas idéias, passamos do extremo antigo, de achar que criança não pensa, ao outro extremo: criança é complicação e nos tiraniza. Receitas de como tratar do bebê ao adolescente atormentam gerações de pais aflitos.
Esquecemos o melhor mestre: o bom senso. A escuta do que temos no nosso interior, aquela coisa que, ás vezes, pode parecer antiquada chamada intuição, lembram? Claro que para isso precisamos ter bom senso, e uma vóz de dentro de nós para ser ouvida - não o eco das propostas estranhas que nos são apresentadas.
Ou cada vez que o bebê chorar, a criança ficar menos ou mais ativa, vamos procurar um especialista. Para que ele nos ensine a segurar o bebê, a dar a mamadeira, a cortar a unha, a olhar no olho, aconchegar ao peito, enfim, a amar a criança nossa de cada dia.
É que, além de aflitos e desorientados pelo excesso de informação inútil, somos muito superficiais. Falta-nos o hábito de observar e refletir. Assutados com responsabilidade, escolha e decisão, despreparados como adolescentes, nos desviamos do espelho que faz olhar para dentro de nós. Cada vez mais amadurecemos tarde ou mal. Somos crianças tendo crianças.
O medo de pensar para decidir é medo de encontrar a ponta do fio na confusão do novelo, e puxando por ela, ver tudo se desmontar.
Mas talvez fosse bom: poderíamos recolher os cacos e recomeçar. Criar uma estrutura mais natural e firme do que essa em que nos fundamos e, baseados nela, dar aos filhos uma mensagem
tranquila e positiva, que não está em livros nem nos consultórios dos especialistas.
Crise é bom para fazer pensar, ou repensar muita coisa. Por exemplo, que a gente está vivo; tem responsabilidades; pertence a um grupo ou vários, pelo menos a uma família; está imerso num círculo de afetos ou num meio profissional. Lá influencia e é influenciado, é um pedacinho da humanidade, existe como ser pensante, atuante, e todos os "antes" que a gente queira acrescentar.
Isto é, ninguém vive como objeto passivo, mas inevitavelmente faz diferença: o que é de um lado muito bom, é de outro, terrível. Susto bom esse, pois nos mostra que não fugindo demais das responsabilidades a gente pode modificar as coisas. Não é preciso mover montanhas: pode-se valorizar alguém, escutar uma palavra, transmitir confiança ou mostrar afeto.
Talvez essa seja uma das nossas dificuldades em sermos naturais: esperamos grandes milagres, analisamos complexas terorias, engolimos informações indigestas, nos acostumamos até com o que não presta, pura banalização das coisas cotidianas, muitas vezes, nada banais. Daí, aflitos queremos que a teoria na prática sempre funcione.
Como nem sempre funciona, abrem-se manuais, criam-se novas e mirabolantes fórmulas, fazem-se cursos e mil cursinhos para aprender a ser gente e lidar com o que é humano.
Tudo isso - moderno e antigo, teórico e concreto - só vai adiantar na medida em que construir sobre o indipensável alicerce da reflexão, da seriedade, da integridade. Os nossos alicerces, é claro.
Luciana da Silva
Psicóloga


Nenhum comentário:
Postar um comentário