Eu disse à minh'alma: fica tranquila e deixa que a escuridão desça sobre ti...T.S. Eliot
Lí hoje um trecho de um livro Raízes da Contemplação, de T.S. Eliot, escritor americano, que em muito me inspirou para escrever esta reflexão. Em suas palavras ele dizia:
"se uma pessoa que chegou á escura noite de seu interior, se deixar levar pela impaciência 'vai fugir das trevas e fazer o máximo para embriagar-se com a primeira luz que aparecer'. É essa minha vontade. A idéia de permanecer nas trevas me é estranha. Sou uma pessoa que procura a luz, sou impaciente nessa procura. Mas será que procurar a luz, a verdadeira luz, não o produto de uma imitação, só acontece depois de habitar por algum tempo as trevas?"
A partir da reflexão de Eliot, fiquei por alguns instantes quieta intrigada, instigada a refletir sobre o habitar por algum tempo as trevas...
Quando permanecemos quietos na mudez da verdade nua, descansando de olhos bem abertos em sinal de simples alerta, atentos á escuridão que nos confunde, uma paz sutil e indefinida começa a nos envolver e a ocupar-nos com uma profunda e inexplicável satisfação... O que será? É difícil dizer, mas sentimos que de alguma forma somos somados á uma vontade, á algo absolutamente maior que nós mesmos...
Para mim, esta escuridão está parcialmente associada á palavra DÚVIDA. Sentimo-nos por vezes, envolvidos em um terrível e silencioso questionamento que não conhece nenhuma resposta, apenas dúvidas. Isso me faz pensar sobre uma criança, que com todo seu vigor, chutou uma bola para o ar e ela nunca mais voltou. Pode ser que ela não tenha visto que sua bola tenha ficado presa, aos galhos de uma árvore, ou quem sabe junto ao telhado de alguma casa. Mas o que acontece é que ela fica exatamente ali, parada, assombrada, esperando.
Assim somos muitos de nós, que vivemos como se a vida estivesse suspensa. Continuamos esperando que as respostas caiam do céu, mas elas não caem.
Deveria haver mais gravidade em nossa espera, mais lógica, talvez?
A escuridão é excruciante. Na verdade, outra palavra que se soma á escuridão que agora refletimos é a tensão. Nessa caverna escura de nosso ser, somos levados a contatos mais agudos com nossas próprias dores. À noite, sombras que não vemos à luz do dia brincam na parede. Nesses momentos vemos, delineados nas paredes de nossa alma, nossas mágoas, nossos conflitos, nossas ansiedades e como somos incompletos.
Gostaríamos de nos livrar da escuridão, abrirmos o casulo, ocuparmo-nos, fazer algo que tirasse nossa mente de nosso "sofrimento" agarrarmo-nos a alguma resposta fácil que camuflasse as sombras. Mas não adianta! Temos lá dentro de nós, á espreita, a sensação de que há um mistério revelando-se na escuridão que não conseguirei alcançar de nenhuma outra maneira...
LUCIANA DA SILVA
Psicóloga-CRP: 06/73261


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