segunda-feira, 29 de setembro de 2008

MARIO QUINTANA: "O QUE EU NÃO QUERO."

Não quero alguém que morra de amor por mim.
Só preciso de alguém que viva por mim,
que queira estar junto de mim, me abraçando.
Não exijo que esse alguém me ame como eu o amo,
quero apenas que me ame, não me importando com que intensidade.
Não tenho a pretensão de que todas as pessoas que gosto, gostem de mim.
Nem que eu faça a falta que elas me fazem.
O importante pra mim é saber que eu,
em algum momento, fui insubstituível.
E que esse momento será inesquecível.
Só quero que meu sentimento seja valorizado.
Quero sempre poder ter um sorriso estampando em meu rosto,
mesmo quando a situação não for muito alegre.
E que esse meu sorriso consiga transmitir paz,
para os que estiverem ao meu redor.
Quero poder fechar meus olhos e imaginar alguém.
E poder ter a absoluta certeza de que esse alguém
também pensa em mim quando fecha os olhos,
que faço falta quando não estou por perto.
Queria ter a certeza de que apesar de minhas renúncias e loucuras,
alguém me valoriza pelo que sou, não pelo que tenho.
Que me veja como um ser humano completo,
que abusa demais dos bons sentimentos que a vida lhe proporciona,
que dê valor ao que realmente importa,
que é meu sentimento e não brinque com ele.
E que esse alguém me peça para que eu nunca mude,
para que eu nunca cresça, para que eu seja sempre eu mesmo.
Não quero brigar com o mundo, mas se um dia isso acontecer,
quero ter forças suficientes para mostrar a ele que o amor existe.
Que ele é superior ao ódio e ao rancor,
e que não existe vitória sem humildade e paz.
Quero poder acreditar que mesmo se hoje eu fracassar,
amanhã será outro dia, e se eu não desistir dos meus sonhos e propósitos,
talvez obterei êxito e serei plenamente feliz.
Que eu nunca deixe minha esperança ser abalada por palavras pessimistas.
Que a esperança nunca me pareça um "não“
que a gente teima em maquiá-lo de verde e entendê-lo como "sim".
Quero poder ter a liberdade de dizer o que sinto a uma pessoa,
de poder dizer a alguém o quanto ele é especial e importante pra mim,
sem ter de me preocupar com terceiros.
Sem correr o risco de ferir uma ou mais pessoas com esse sentimento.
Quero, um dia, poder dizer às pessoas que nada foi em vão que o amor existe,
que vale a pena se doar às amizades , às pessoas, que a vida é bela sim,
e que eu sempre dei o melhor de mim.
E que valeu a pena!!!
Mário Quintana

EXPERIÊNCIA DO MORRER NO VIVER...

Na maioria das vezes, nada queremos saber sobre a morte, ela é o inominável e o inapreensível da experiência humana. É um tema que sempre suscita embaraços e desconfortos.
No inconsciente o homem se crê imortal. A morte é a etapa final do transcurso do tempo de uma vida. E o inconsciente não conhece o tempo nem a morte.
Mas Freud nos adverte ao final de seu texto Reflexões para os tempos de guerra e morte ( 1915 vol XIV), “se queres suportar a vida, prepara-te para a morte.”
A morte está indissociada da vida e “a vida empobrece, perde em interesse, quando a mais alta aposta no jogo da vida, a própria vida, não pode ser arriscada” continua nos lembrando Freud em seu texto.
Em seu livro A negação da morte, Ernest Becker escreveu “a idéia de morte, o temor a ela, persegue o homem como nenhuma outra coisa: ela é um dos maiores incentivos da atividade humana”. Impulsionado pelo desejo de evitar a fatalidade da morte, de vencê-la, de dar maior significado para sua vida o homem projeta e realiza inúmeras coisas que o ultrapassam. Os feitos do homem são a sua condição de imortalidade, é pela sua obra que o homem supera a realidade da morte.
O homem vive sob o jugo de um paradoxo: possui uma identidade simbólica que o destaca nitidamente na natureza. Ele tem consciência de sua existência e de sua finitude. Está fora da natureza e ao mesmo tempo irremediavelmente dentro dela. Coloca a cabeça nas estrelas e contudo está alojado em um corpo que arqueja para respirar, que lhe é estranho de muitas maneiras: que doe, sangra, definha e morre, que traz a morte como parte de sua biologia.
O medo da morte é uma expressão do instinto de autopreservação, que funciona como um impulso constante para conservar a vida e sobrepujar os perigos que a ameaçam. Ele tem de estar presente por trás do funcionamento normal, com o fim do organismo proteger a própria existência. Porém, ele tem de ser adequadamente suprimido para permitir que se viva com um pouco de conforto. Percebemos assim o paradoxo: o onipresente medo da morte bem como o esquecimento desse temor na vida consciente.
Seguindo Freud em seu dito “se queres suportar a vida, prepara-te para a morte”, somos orientados a nos desapegarmos das coisas, a fazermos o trabalho do luto. Nossa vida toda é um trabalho de luto; luto da infância, dos pais idealizados, das etapas vividas, de todas as perdas que o transcurso da existência nos impõe e por fim a preparação para o último luto, da própria vida. Mas o medo da morte não está posto para todos de igual modo. Sujeitos que tiveram más experiências primitivas ficam mais morbidamente fixados na angústia da morte. Uma criança que teve uma infância favorável desenvolve mecanismos mais adequados para lidar com dificuldades, perdas e consequentemente com a morte.
O irônico quanto à negação da morte, é que, o sujeito visando evitar a morte, o faz matando tanto de si mesmo e uma faixa tão grande de seu mundo de ação que ele na verdade se isola e diminui-se, ficando como se já estivesse morto. Inúmeros poetas nos contam que a pior morte é a que se vive em vida.
A morte na cultura Freud escreveu em seu artigo Além do princípio do prazer (1920) que a noção de morte natural é inteiramente estranha às culturas primitivas; elas atribuíam a morte à influência de um inimigo ou espírito mal. Na realidade todos os homens opõem-se à idéia de que a vida pulsional sirva para ocasionar a morte; que ela trabalhe para garantir que o organismo seguirá seu próprio caminho em direção a uma morte mais natural possível.
Em “Reflexões para o tempo de guerra e morte” ele escreve que apesar de parecer óbvio ser a morte o resultado da vida e que cada um deve à natureza uma morte, natural, inegável e inevitável, isso não ocorre. Ao contrário, a tendência é de negá-la, silenciá-la, colocá-la de lado, eliminando-a da vida.
A tendência é pensar a morte como fortuita, decorrente de acidente, doença, idade avançada. Nós só conseguimos lidar com a morte natural transportando-a para a velhice. E a conjunção de morte e velhice desloca a morte para um futuro sempre incerto e imaginariamente sempre longe e no qual não nos vemos. E dessa forma conjugando morte e velhice se imputa a essa última todo o horror com conseqüente medo e negação.
Morte e luto, fracasso e perda, fazem parte da estrutura da vida e, portanto acompanham o sujeito. Por paradoxal que seja, porque há morte é que sabemos da vida, a vida transita pelo desamparo e é diante da eminência da morte que a ela recupera seu pleno sentido. Estamos sempre associando velhice e morte. É inegável que à medida que a velhice chega, o sujeito passa por inúmeras perdas. Para muitos não é fácil reinventar a vida após certa idade quando vários laços foram desfeitos. Mas a saída é o trabalho do luto. Luto que cada um deve fazer inclusive de si mesmo, além do luto pela perda dos objetos. Alguns tentam resolver com ódio, com lamentação e queixa. Ainda que a lamentação faça parte do luto, é preciso concluí-lo. Luto e vida andam juntos, não é possível andar pela vida sem passar pelo luto e a fuga dele acaba impedindo o movimento da vida. Mesmo que o sofrimento seja inevitável a esse processo, suportar que algo falte permite ao sujeito construir respostas mais inventivas em torno dessa falta, extraindo dela um saber sobre si mesmo.
Suportar que algo falte, é a grande questão diante do luto, da morte. Os rituais foram elaborados para auxiliar o homem nesse processo. Maud Mannoni cita em seu livro O nomeável e o inominável uma vasta pesquisa realizada por Philippe Áries em sua obra O homem diante da morte que explica as mudanças de atitude da sociedade diante desse acontecimento. Ele escreve que na Idade Média a morte dava como que um aviso prévio e as pessoas eram simplesmente observadores dos sinais sobre si mesmas. Quando chegava a hora, morriam exatamente como era preciso. Não havia recursos para fazer frente à morte. No século XVIII e até mesmo no início do século XIX, morria-se em público, a casa era aberta a todos. Era costume que os amigos, vizinhos, padres viessem assistir o moribundo. O homem sabia que ia morrer e preparava-se para isso. Os testamentos com freqüência eram testamentos místicos, onde o homem dizia um trajeto de uma vida e o que a morte lhe remetia. Uma tradição se transmitia assim, da vida além da morte, para uma geração seguinte. Os túmulos tinham como função impor a recordação de uma vida à posteridade.
Na contemporaneidade os ritos da morte são simplificados e os avanços da ciência empurram a morte cada vez mais para longe da existência do homem. A morte não é mais vista como fazendo parte da vida e seu insondável mistério banalizado. A ciência resiste à morte tanto quanto o profissional se sente impotente diante dela na relação com o paciente.
O paciente terminalComo lidar com uma pessoa para quem a ciência já não tem mais recurso?O paciente marcado por uma doença incurável ou em fase terminal, convoca o profissional que o assiste e seus familiares a se portarem diante da morte. Como lidar com essa experiência, como ajudar o paciente, o que fazer nesse momento em que parece que não há mais nada que possa ser feito? Ainda que a existência autônoma esteja comprometida, até mesmo quanto à dignidade da existência, há ali um sujeito. O cuidado, a realidade que lhe é propiciada, faz surgir nele uma dimensão tranqüilizadora ou de desamparo.
Nessa relação todos os “pequenos nadas” que dão à vida seu sal constituem uma dimensão essencial: um olhar, uma palavra amiga, um gesto de carinho, uma pequena atenção. O que mantém vivo, “com vida”, um paciente nessas condições é a afeição, a ternura, o aconchego no qual possa haver a presença de alguém que o reconheça, que o escute, que o acolha. O cuidar vai além do atendimento às necessidades básicas do sujeito, é um exercício de respeito, de amor e compaixão. Tão mais importante quando privilegia os momentos em que o paciente pode se expressar como sujeito. Ele sabe quando lhe faltam com respeito, quando insistem em procedimentos que ele recusa. Os procedimentos que podem ajudá-lo devem ser tentados, mas que se discuta com ele sua posição e escolha.
É muito penoso para o paciente que está ficando cada vez mais dependente ter a impressão que está perdendo seu estatuto de sujeito. Até o final da vida persiste sua sensibilidade aos efeitos de uma fala. E diante do inevitável o maior consolo talvez seja poder fazer um balanço positivo da vida que se está prestes a deixar.
Retornamos assim ao ponto de onde partimos: é a maneira como vivemos que nos prepara para morrer. Ou, como transmitiu Sêneca: "Deve-se aprender a viver por toda a vida e por mais que tu talvez te espantes, a vida toda é um aprender a morrer".

"FAÇA-SE A PERGUNTA CERTA..."

Você já ouviu a opinião de muitos a respeito da importância de seguir o seu coração.
Pois é; um caminho que não fale ao seu coração não alimentará a sua alma; e uma pessoa sem alma é um ser perdido no oceano da vida. A exploração do nosso mundo interior ajuda a nos conhecer melhor e, portanto, a construir uma vida que tenha sentido.
Fico triste quando converso com pessoas que me confessam, quase chorando: é horrível ver que batalhei e consegui tantas coisas que queria, mas não sou feliz.
O meu sacrifício não me deu felicidade. É importante escutar a nós mesmos o tempo todo, para saber se estamos realizando objetivos que nascem do nosso coração.
Só assim teremos certeza de que, no final da vida, não iremos nos martirizar com o arrependimento.
— Mas, Roberto, como conhecer a minha alma?
Como escutar o meu coração?
Bem, a primeira dica é: faça-se a pergunta certa.

Quando você faz a pergunta errada, o seu coração vai para muito longe.
Quer um exemplo de pergunta errada? Suponha que o seu chefe foi duro com você e apontou vários problemas de desempenho no seu trabalho. Se você perguntar a si mesmo: “Por que meu chefe está me sacaneando?”, não vai encontrar uma resposta que lhe ajude a crescer. Sentir-se vítima do seu chefe, em vez de analisar o próprio trabalho, vai deixar você distante da resposta que lhe interessa.Nesse momento o melhor é olhar para dentro de si, verificar em quais pontos o seu chefe tem razão, analisar suas atitudes e tentar melhorar o seu desempenho.Seu namorado terminou o relacionamento com você. Em vez de perguntar por que ele a sacaneou, seria mais interessante entrar em sintonia com os próprios sentimentos. Se a tristeza aparecer, o melhor é chorar em paz, e só depois analisar seu comportamento.Talvez você se dê conta de que estava sendo muito crítica com seu namorado e, a partir daí, aprenda a admirar mais a pessoa que você ama, percebendo com isso o que pode melhorar em sua maneira de demonstrar amor.

Veja alguns exemplos de perguntas certasSe você fizer as perguntas certas, conseguirá aprender muito sobre si mesmo.Faça suas perguntas, mesmo que elas fiquem muito tempo sem resposta:
• O que é essencial para você?
• Qual é a sua meta profissional?
• Como gostaria de estar daqui a dez anos?
• O que você precisa fazer para realizar seus projetos?
• A sua vida está do melhor jeito que poderia estar neste momento?
A capacidade de explorar nosso mundo interior nos ajuda a tomar melhores decisões e a evitar problemas decorrentes da nossa maneira de ser. Quando tinha aproximadamente 20 anos eu era o rei das decisões impulsivas. Decidia comprar alguma coisa sem pensar e alguns dias depois tomava consciência de que tinha feito besteira. Depois de algum tempo decidindo errado, prometi a mim mesmo que sempre me daria um prazo de uma semana para pensar antes de comprar qualquer coisa mais cara.Isso evitou que eu fizesse muitas bobagens. Conhecer-se melhor pode ajudá-lo a tomar decisões que lhe façam realmente crescer. Certa vez um deputado que gostava muito do meu trabalho telefonou-me e convidou-me a assumir um cargo de diretor de um importante hospital público. Consegui pedir a ele um prazo de um dia antes de lhe dar a resposta, o que foi um grande sacrifício, pois a minha vontade era dizer sim na hora.Fiquei pensando sobre o assunto e me dei conta de que aceitar o convite para cuidar de um hospital não tinha o menor sentido, considerando a minha vocação de psiquiatra. O que eu gostava mesmo era de escutar as pessoas e ajudá-las a se realizar. Foi um alívio quando, no dia seguinte, liguei para dizer “não, obrigado!”.
Minha alma celebrou a minha decisão. Algumas vezes, sua rota precisa ser reajustada e você só descobrirá isso se souber conversar consigo mesmo. Ficar em silêncio ajuda muito a escutar a voz da sua alma.Sabe quando rastreamos todos os arquivos e pastas do computador em busca de alguns vírus que possam ter invadido o sistema? Sabe quando navegamos pela internet e mantemos o antivírus acionado para impedir a entrada de elementos suspeitos? Na vida real, o autoconhecimento é nosso melhor antivírus. Para que você não perca todos os seus documentos nem tenha de configurar novamente sua máquina, pergunte-se sempre o que realmente importa em cada momento de sua vida.

Texto de: Roberto Shinyashiki

domingo, 28 de setembro de 2008

MELANCOLIA E NARCISISMO: QUESTÕES DA ATUALIDADE

Luciana da Silva
Psicóloga
A melancolia (palavra que em meados do século 19 começa a ser substituída pelo termo depressão) é considerada a doença mental contemporânea, e cabe indagar como nossa sociedade facilita o surgimento dessa patologia. Não faremos distinção entre melancolia e depressão.
Para muitos, a depressão é uma patologia orgânica, que transparece psicologicamente como tristeza profunda ou melancolia.
Ou seja, esta é um sintoma daquela. Em contrapartida, para Freud, não há diferença entre uma e outra. Ambas exprimem o mesmo fenômeno, embora possamos considerar a depressão um sintoma da melancolia, uma vez que a palavra "depressão" significa rebaixamento, ou seja, uma diminuição das atividades, que pode ser tanto orgânica quanto psíquica.Em "Luto e melancolia", Freud apresenta uma analogia entre melancolia e luto. A diferença entre ambos decorre da ausência de disposição patológica no luto e da presença dela na melancolia. Psicanaliticamente, uma "disposição patológica" é uma série de condições da vivência pessoal que faz alguém reagir sempre de uma certa maneira aos acontecimentos. Ao contrário da melancolia, no luto não há disposição patológica porque, embora leve a um afastamento das atitudes normais para com a vida, não é duradouro, não define um modo constante de viver e se espera que a anormalidade seja passageira, não necessitando de tratamento médico.
No caso da melancolia, a predisposição patológica é dada pelo narcisismo: como este foi vivenciado e porque o indivíduo ficou fixado nele. Freud enumera os traços distintivos da melancolia, os mesmos encontrados no luto, com uma única exceção: a perturbação da auto-estima não é encontrada neste último. Os demais traços comuns a ambos são: desânimo profundo e penoso, perda de interesse pelo mundo externo, perda da capacidade de amar, afastamento de toda e qualquer atividade.
Reação à perda de alguém que se ama, no luto a falta de interesse pelo mundo externo se dá porque este não traz de volta o objeto perdido; a falta de capacidade para amar outros ou outras coisas ocorre por não se ter a capacidade de substituir o objeto perdido por um novo objeto, fazendo com que a única atividade possível seja "realizada com a memória do ser querido". Freud fala no "trabalho do luto", cujo objetivo é desinvestir o objeto perdido, renunciar a ele, levando a libido (a energia psíquica) de volta ao eu para que este possa desejar um outro objeto. De fato, ao sentir a falta do objeto, o sujeito enlutado descobre que era precisamente esse objeto desejado que, perdido, não pode ser substituído por outro, e a libido se volta para o objeto ausente por meio de lembranças e expectativas que o sujeito se recusa a abandonar. O trabalho do luto consiste em evocar as lembranças e investi-las fortemente uma a uma, de maneira a que, paulatinamente, a energia psíquica se desligue delas. O luto revela um traço constitutivo da humanidade do homem, isto é, a maneira de experimentar a ausência.

Perda e luto
Como o luto, a melancolia é também reação à ausência, à perda de um objeto amado. Nela, porém, a perda é de natureza mais ideal e inconsciente: "O melancólico não sabe o que perdeu", escreve Freud.
A melancolia é, pois, a reação inconsciente a uma perda, seja ela real ou imaginária, seja conhecendo-se ou não o objeto perdido, seja conhecendo-se o objeto sem que se saiba o que se perdeu com ele. Nos dois casos há um empobrecimento e um vazio; contudo, no luto, isso ocorre em relação ao mundo, enquanto que, na melancolia, em relação ao eu. Enquanto o trabalho do luto tem como objetivo liberar o eu para que possa "viver" outra vez, na melancolia o sujeito experimenta desprezo por si mesmo, não busca a vida nem preza o instinto de viver. O que chama a atenção de Freud, de um ponto de vista psicológico, é a diminuição da pulsão de vida, e quando o melancólico busca a morte, compreende-se seu caráter patológico. Freud, ao introduzir a noção de inconsciente, introduziu também a exigência de que o médico ouvisse e levasse a sério o discurso de seus pacientes, signos visíveis de acesso ao invisível, entendido como o sentido.
A revolução psicanalítica consiste em ouvir o paciente, não para desmenti-lo, e sim para compreender o sentido da imagem que tem de si mesmo. O melancólico tem satisfação ao comunicar seus defeitos, julgando com isso apresentar-se tal como é. As auto-acusações do paciente, explica Freud, não são totalmente desprovidas de razão, ainda que não haja correspondência entre o grau de autodegradação e sua justificativa real.
É exatamente isto que permite diferenciar a melancolia do luto: a fala e o comportamento do melancólico levam a uma conclusão surpreendente, pois o objeto amado perdido é o próprio eu. O outro (perdido) é o eu. Admitir que o paciente está descrevendo o que realmente se passa nele significa admitir que a perda se refere à auto-estima e que, portanto, o eu está perdido para si mesmo.
Freud descreve a melancolia como um fenômeno psíquico de caráter representacional, ou como uma "neurose de defesa". Em termos freudianos, a defesa nada mais é do que um mecanismo pelo qual o eu procura proteger-se das excitações ligadas a representações que lhe são incompatíveis (incompatíveis porque lhe causam dor ou sofrimento). A melancolia é um tipo peculiar de defesa, que Freud designa como "neurose narcísica", na qual a capacidade do sujeito de estabelecer vínculos libidinais (ou de energia psíquica) com os objetos está prejudicada ou mesmo perdida.

O outro é o eu
Todos nós partimos de uma "escolha objetal", isto é, da ligação da energia psíquica a determinada pessoa; pode ocorrer, a seguir, que a escolha seja ab
alada por um acontecimento real ou não, algo concreto, ou um sentimento, ou uma fantasia.
Este leva à perda do objeto, ou seja, leva a libido a desligar-se dele. Se a energia psíquica tomar um caminho normal, liga-se a outro objeto. Ora, na melancolia, a energia psíquica livre se recolhe no eu e estabelece uma identificação entre este e o objeto perdido.
Com essa identificação, entramos no núcleo da melancolia, qual seja, a perda do objeto passa a ser perda do próprio eu e o conflito que existia entre o eu e a pessoa amada passa a ser o conflito entre a crítica do eu e o eu. O "outro" é o outro e simultaneamente o próprio eu, que mimetizou esse outro, identificando-se com ele e o perdendo, donde a neurose ser narcísica.
A melancolia nos ensina muito sobre todos os humanos. De fato, no ponto de partida do desenvolvimento de nossa vida psíquica, há um momento claramente narcisista, pois, como explica Freud, definido como a condição em que o sujeito toma a si mesmo como objeto de amor, o narcisismo implica superestima, uma vez que no narcisismo infantil destaca-se a vivência prazerosa da criança de sentir-se especial, perfeita, de que são superestimadas sua beleza, sua inteligência e todas as suas qualidades, enquanto seus defeitos são negados ou esquecidos.
Dessa forma, o amor do narcisismo se caracteriza pela idealização de si - um eu ideal. A libido descrita como narcisismo reivindica um lugar no curso regular do desenvolvimento sexual humano. A melancolia é a fixação no estágio infantil do narcisismo, quando a energia psíquica livre retorna ao eu e, por ter havido uma identificação narcisista com o objeto, é ao narcisismo que a libido retorna. A identificação narcisista com o objeto vem substituir a relação com o objeto, resolvendo assim o conflito entre o sujeito e a pessoa amada.
Caso o indivíduo no início da vida sofra sucessivos desapontamentos amorosos, o narcisismo infantil fica gravemente ferido e ele sente-se totalmente abandonado; isso gera as primeiras crises de depressão. A impossibilidade de referir-se a um passado de lembranças amoráveis define a situação da gênese psicológica da melancolia.
Se concordarmos com Freud em considerar a melancolia uma neurose narcísica, vale a pena observarmos as características da nossa sociedade, levantando a hipótese de que esta incentiva o surgimento de patologias narcísicas, entre as quais a melancolia. Idéia reforçada se, com Christopher Lasch ( A cultura do narcisismo), considerarmos não apenas que a cultura ocidental contemporânea estimula o narcisismo, mas também que a própria cultura é narcisista. Se uma cultura narcisista propicia o aparecimento da melancolia, podemos compreender porque a incidência de melancólicos (ou depressivos) é hoje tão grande.
Alguns traços permitem pensar a sociedade contemporânea como narcisista e promotora de narcisismo: o gosto pelo efêmero e a perda de referência temporal ao passado e ao futuro; a rápida obsolescência das qualificações para o trabalho, dos valores e das normas de vida e o prestígio do paradigma da moda; a competição como forma de constituição da identidade pessoal; o medo, gerado pela insegurança e pela competição; a perda da autonomia individual sob o poderio do "discurso competente" (a fala dos especialistas); a incapacidade para simbolização e o conseqüente fascínio pelas imagens e pela nova forma da propaganda e da publicidade, que não operam referidas às próprias coisas e sim às suas imagens (juventude, beleza, sucesso, poder) com as quais o consumidor deve identificar-se. Desses traços, a relação com o tempo, e a impossibilidade de simbolização sob o prestígio das imagens são importantes para a determinação da melancolia.

Sociedade narcisista
Nossa sociedade alimenta o gosto pelo efêmero; passado e futuro não são referências psicológicas e sociais predominantes, mas sim o presente como instante fugaz.
Porém, a ordem humana surge exatamente como capacidade para simbolizar, isto é, para lidar com o ausente, e a primeira relação com a ausência é dada pela relação com o outro sob a forma do tempo, seja como relação com o morto - relação com o que se tornou ausente - seja como relação com a natureza por meio do trabalho, que torna presente o que estava ausente.
A temporalidade, relação com a ausência, é, assim, decisiva para a realização do trabalho do luto, e a impossibilidade dessa relação temporal é o que opera na melancolia e dificulta (quando não impede) o trabalho de sua superação. Ora, a sociedade do efêmero, do tempo reduzido ao instante presente fugaz abandonou a densidade e profundidade do tempo, desencadeando a impossibilidade de simbolizar a ausência e, portanto, gerando depressão, isto é, a melancolia.
A sociedade narcisista desvaloriza culturalmente o passado, não sendo surpreendente que este apareça sob a forma da "nostalgia", como se o passado fosse o mesmo que velhos estilos e velhas modas sempre repostos pelo mercado como um bem de consumo volátil. De fato, sem interesse pelo passado, o narcisista também não se interessa pelo futuro, achando difícil a interiorização de associações e de lembranças felizes com as quais poderia enfrentar a velhice que, no seu entender, sempre traz tristeza e dor.
A incapacidade para atar os laços do passado e do futuro coloca a sociedade e os indivíduos na mesma condição de Narciso, incapaz de amadurecer. Também a ameaça de catástrofes (de guerras de extermínio geral, desastres ecológicos irreversíveis, surgimento de novos vírus etc.) tornou-se uma preocupação cotidiana. E, assim, justifica-se viver o momento, o viver para si, e não para as gerações futuras. Perdeu-se o sentido de continuidade histórica, na qual as gerações se sucediam do passado para o futuro. A sociedade sem futuro se dispõe a um narcisismo coletivo.
Se a grande questão do melancólico é não conseguir lidar com uma perda, a perda inconsciente de si mesmo, da auto-estima, e sendo a sociedade atual marcada pelo descartável, ou seja, por perdas, o sentimento de ruína do indivíduo é explicado pela sua impossibilidade de sentir-se valorizado, de sentir-se capaz de corresponder a seu eu ideal, uma vez que ele próprio é descartável nesta sociedade. Se tudo é descartável e efêmero, tudo se torna imediatamente ruína e a própria sociedade, imersa em ruínas, é melancólica.
Nessa cultura do individualismo competitivo, o indivíduo é levado pelo desejo desenfreado da felicidade, identificada ao sucesso, sendo este identificado à supremacia pela eliminação do outro (eliminação que, se não é física, é moral e profissional). O propósito do indivíduo, porém, não é castigar o outro com suas próprias incertezas, e sim encontrar um sentido para a vida; por isso ele é perseguido pela ansiedade, desconfiando da competição por tê-la inconscientemente associado a uma enorme necessidade de destruição. Dessa forma, o narcisista ferozmente competitivo em busca de sucesso, portanto, de reconhecimento e aprovação, paradoxalmente só pode intensificar o isolamento do eu.
O núcleo da sociedade narcisista é a necessidade do espelho, isto é, das imagens. O indivíduo da cultura do narcisismo é aquele que depende do espelho dos outros para validar sua precária ou inexistente auto-estima, traço que, como vimos, marca indelevelmente o melancólico. Ficando a sós consigo mesmo, cresce sua insegurança, pois ele precisa de platéia e admiração.
Se tomarmos a relação dos indivíduos com as imagens produzidas pelos instrumentos produtores de realidade virtual e pelos outros meios de comunicação de massa, veremos repetir-se exatamente o que se passa no mito de Narciso. A imagem midiática, espelho que reflete uma imagem que deve ser desejada ou desejável, é, por sua irrealidade, inteiramente inalcançável. Há um abismo entre o dever-ser da imagem e o ser do indivíduo que, identificando-se com a imagem, sente-se distante de si e experimenta uma perda contínua.
Isso é tanto mais relevante para compreendermos a extensão assumida pela melancolia (com o nome de depressão), quanto mais levarmos em conta que as mensagens midiáticas, visando à sedução, operam com simulacros, imagens do real intensificado, dotado de uma aparência mais real do que o próprio real, para torná-lo absolutamente desejável. Isso significa que a identificação por meio do espelho ou da imagem inalcançável e absoluta impossibilita uma identidade pessoal positiva ou afirmativa e instaura uma identidade negativa ou por falta.
Eis a razão por que um dos traços mais marcantes da experiência contemporânea é o auto-exame corporal e psíquico incessante com a finalidade de detectar imperfeições, incorreções e faltas por comparação com a imagem hiper-real ou virtual. Não poderia ser mais óbvia a conseqüência: tem um nome preciso uma experiência contínua de falta e perda, de desconhecimento de si por identificação negativa com um outro que é o próprio eu. Chama-se melancolia.

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

TEXTO: COM TEUS PRÓPRIOS PÉS...

Autoria Desconhecida

Desde o dia em que tu nasceste, eu criei a ilusão, dentro de mim, que poderia caminhar por ti.
Imaginei que colocaria teus pés sobre os meus e te levaria pelos caminhos que eu julgasse mais tranqüilos e seguros.
Dessa maneira, tu nunca feririas teus pés pisando em espinhos ou em cacos de vidro e jamais se cansaria da caminhada, nem mesmo precisarias decidir qual estrada tomar.
Isso seria eternamente minha responsabilidade... e foi assim durante um bom tempo, caminhei por ti, para ti.
De repente, o tempo veio me avisar bruscamente que essa deliciosa tarefa não faria mais parte dos meus dias. Teus pés cresceram e eu já não conseguia mais equilibrá-los em cima dos meus, daí quando eu menos esperava eles escorregaram e alcançaram o solo.
Hoje sou obrigada a vê-los trilhar caminhos nos quais os meus jamais os levariam e ainda tento detê-los insistentemente, mas só raríssimas vezes consigo.
Agora só me é permitido correr com os meus junto aos teus e em certos momentos teus passos são tão largos que quase não posso acompanhá-los.
Atualmente, assisto aos teus tropeços sempre pronta para levantar-te das tuas quedas.
Por vezes, tu me estendes as tuas mãos em busca de socorro, outras, mesmo estando estirado ao chão e ferido, insistes em levantar-te sozinho por puro orgulho ou para me provar que já és capaz de erguer-te após teus tombos e curar-te de tuas próprias feridas.
Assim vamos vivendo e sinto uma saudade imensurável daquele tempo que precisavas de mim para conduzi-lo, pois era bem mais fácil suportar teu peso sobre meus pés, do que sobre meu coração.
No entanto, já consigo compreender como a vida é sábia.

Percebo, finalmente, que em algum momento tu precisaste mesmo desbravar teus caminhos independente de mim...
Como eu, é provável que tenhas que fazê-lo com mais alguns pés sobre os teus, os dos teus filhos.
Não, claro que não é uma tarefa fácil, mas se eu consegui, tu também conseguirás porque plantei em teu coração o melhor e mais poderoso aditivo para que suportes tanto peso, o amor!


Dedicado aos filhos, amigos e à todos os pais.

terça-feira, 23 de setembro de 2008

CÉUS E INFERNOS DE NOSSA ALMA...

Por vezes em nossa vida, passamos muito tempo em busca de respostas para dúvidas que adentram nosso ser, causando-nos angústia e sofrimento, sem que saibamos o por quê, totalmente alheios aos céus e infernos que atravessam nossas vidas e pelos quais transitamos sem ao menos perceber, e que se fazem presentes em situações cotidianas.
Mas, o que seriam estes céus e infernos?
Para refletir esta questão, vou descrever o trecho de uma pequena história que recentemente recebi em uma mensagem e que me motivou a escrever este texto:


Um dia, um samurai grande e forte, conhecido por sua índole violenta foi procurar um sábio monge em busca de respostas para suas dúvidas.


- Monge! - disse o samurai com desejo sincero de aprender - ensina-me sobre o céu e o inferno?


O monge, de pequena estatura e muito franzino, olhou para o bravo guerreiro e, simulando desprezo, lhe disse:
- Eu não poderia ensinar-lhe coisa alguma, você está imundo. Seu mau cheiro é insuportável. Além disso, a lâmina da sua espada está enferrujada. Você é uma vergonha para a sua classe.


O samurai ficou enfurecido. O sangue lhe subiu ao rosto e ele não conseguiu dizer nenhuma palavra, tamanha era sua raiva. Empunhou a espada, ergueu-a sobre a cabeça... e se preparou para decapitar o monge.
- "Aí começa o inferno", disse-lhe o sábio mansamente, antes que a lâmina enferrujada da espada do samurai brutalmente lhe atingisse .


Neste momento, o samurai ficou imóvel, impressionado com a sabedoria daquele pequeno homem. Afinal, arriscou a própria vida para lhe ensinar sobre o inferno.
O bravo guerreiro abaixou lentamente a espada e agradeceu ao monge pelo valioso ensinamento.
O velho sábio continuou em silêncio.
Passado algum tempo o samurai, já com a intimidade pacificada, pediu humildemente ao monge que lhe perdoasse o gesto infeliz.
Percebendo que seu pedido era sincero, o monge lhe falou:

- "Aí começa o céu".

Pois bem, cabe agora à cada um de nós, a valiosa e difícil lição sobre os céus e infernos que podemos construir dentro nós e em relação àqueles que estão á nossa volta.
Os céus e os infernos, nada mais são do que estados emocionais, de alma, que nós mesmos elegemos todos os dias para vivenciarmos e que se refletem nas nossas próprias ações.
A cada instante somos convidados a tomar decisões que definirão o início do céu ou o começo do inferno em nós.
Embora as deconheçamos, somos portadores de uma infinidade de ferramentas, recursos mentais e/ou psíquicos que, ainda que muitos sejam inconscientes podem estar ou não, á nosso favor.
Mas para isso, é necessário que diante de uma situação difícil, inesperada, ou outra, poçamos nós mesmos escolher quais serão as ferramentas que queremos usar para lidar com o que nos demanda cada situação.

Assim, se alguém nos ofende, temos ao menos duas opções: lançar mão de toda sua ira contra seu
ofensor ou usar a ferramenta da tolerância.
Feridos pela calúnia, ou usamos das mesmas armas e revidamos ou lançamos mão de nossa autoconfiança para passarmos adiante e mantermos sereno o nosso interior.
Quando a injúria vem nos visitar, podemos ser vingativos com quem nos bate á porta ou oferecer nosso perdão.
Em momento de uma enfermidade inesperada, podemos nos revoltar, achando-nos as criaturas mais sozinhas e indefesas que habitam este mundo, ou empunharmos o escudo de nossa fé até que alcancemos a nossa sanidade.
Diante da morte inesperada daqueles que nos são queridos, ou nos desesperamos, ou usamos as chaves da aceitação da morte como fato inevitável da vida.


Portanto, surpreendidos por inúmeras situações, poderemos sempre optar por abrir abismos infernais de incompreensão dentro de nós, ou estender pontes rumo aos céus do diálogo que nos possibilite uma solução feliz.
A difícil decisão depende sempre de nós. Da nossa vontade dependerá o nosso estado interior.

Criar céus ou infernos, portas lá dentro da nossa alma,
é algo que ninguém poderá fazer por nós.


Luciana da Silva - Psicóloga

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

AGIR E ACREDITAR...

Um viajante caminhava pelas margens de um grande lago de águas cristalinas e imaginava uma forma de chegar até o outro lado, onde era seu destino.

Suspirou profundamente enquanto tentava fixar o olhar no horizonte. A voz de um homem de cabelos brancos quebrou o silêncio momentâneo, oferecendo-se para transportá-lo. Era um barqueiro.

O pequeno barco envelhecido, no qual a travessia seria realizada, era provido de dois remos de madeira de carvalho. O viajante olhou detidamente e percebeu o que pareciam ser letras em cada remo. Ao colocar os pés empoeirados dentro do barco, observou que eram mesmo duas palavras. Num dos remos estava entalhada a palavra acreditar e no outro agir.

Não podendo conter a curiosidade, perguntou a razão daqueles nomes originais dados aos remos.

O barqueiro pegou o remo, no qual estava escrito acreditar, e remou com toda força. O barco, então, começou a dar voltas sem sair do lugar em que estava. Em seguida, pegou o remo em que estava escrito agir e remou com todo vigor. Novamente o barco girou em sentido oposto, sem ir adiante.

Finalmente, o velho barqueiro, segurando os dois remos, movimentou-os ao mesmo tempo e o barco, impulsionado por ambos os lados, navegou através das águas do lago, chegando calmamente à outra margem.

Então o barqueiro disse ao viajante:

- Este barco pode ser chamado de autoconfiança. E a margem é a meta que desejamos atingir.
- Para que o barco da autoconfiança navegue seguro e alcance a meta pretendida, é preciso que utilizemos os dois remos ao mesmo tempo e com a mesma intensidade: agir e acreditar.

Não basta apenas acreditar, senão o barco ficará rodando em círculos, é preciso também agir para movimentá-lo na direção que nos levará a alcançar a nossa meta.

Agir e acreditar. Impulsionar os remos com força e com vontade, superando as ondas e os vendavais e não esquecer que, por vezes, é preciso remar contra a maré.

Madre Teresa também tinha uma meta: socorrer os pobres abandonados de Calcutá. Acreditou, agiu, e superou a meta inicial, socorrendo pobres do mundo inteiro.

Albert Schweitzer traçou sua meta e chegou lá. Deixou o conforto da cidade grande e se embrenhou na selva da África francesa para atender os nativos, no mais completo anonimato.

Como estes, teríamos outros tantos exemplos de homens e mulheres que não só acreditaram, mas que tornaram realidade seus planos de felicidade e redenção particular.

E você? Está remando com firmeza para atingir a meta a que se propôs?

Se o barco da sua autoconfiança está parado no meio do caminho ou andando em círculos, é hora de tomar uma decisão e impulsioná-lo com força e com vontade.

Lembre que só você poderá acioná-lo utilizando-se dos dois remos: agir e acreditar.

Luciana da Silva

Psicóloga

domingo, 14 de setembro de 2008

"O TAMANHO DAS PESSOAS"

(Autor desconhecido)
O tamanho varia conforme o grau de envolvimento.
Uma pessoa é enorme para você, quando fala do que leu e viveu, quando trata você com carinho e respeito, quando olha nos olhos e sorri destravado. É pequena quando só pensa em si mesma, quando se comporta de uma maneira pouco gentil, quando fracassa justamente no momento em que teria que demonstrar o que há de mais importante entre duas pessoas: a parceria nos sentimentos e nas ações.
Uma pessoa é gigante quando se interessa pela sua vida, quando busca alternativas para o seu crescimento, quando sonha junto com você.
E pequena quando desvia do assunto.
Uma pessoa é grande quando perdoa, quando compreende, quando se coloca no lugar do outro, quando age não de acordo com o que esperam dela, mas de acordo com o que espera de si mesma.
Uma pessoa é pequena quando se deixa reger por comportamentos clichês.
Uma mesma pessoa pode aparentar grandeza ou miudeza dentro de um relacionamento, pode crescer ou decrescer num espaço de poucas semanas.
Uma decepção pode diminuir o tamanho de um amor que parecia ser grande.
Uma ausência pode aumentar o tamanho de um amor que parecia ser ínfimo.
É difícil conviver com esta elasticidade: as pessoas se agigantam e se encolhem aos nossos olhos.
Nosso julgamento é feito não através de centímetros e metros, mas de ações e reações, de expectativas e frustrações.
Uma pessoa é única ao estender a mão, e ao recolhê-la inesperadamente, se torna mais uma.
O egoísmo unifica os insignificantes.
Não é a altura, nem o peso, nem os músculos que tornam uma pessoa grande...
É a sua sensibilidade, sem tamanho.

"APRENDENDO NAS QUEDAS"

Letícia Thompson, escritora.
Por que será que nos lamentamos tanto quando nos decepcionamos, perdemos e erramos? O mundo não acaba quando nos enganamos; ele muda, talvez, de direção. Mas precisamos tirar partido dos nossos erros.
Porque tudo teria que ser correto, coerente, sem falhas? As quedas fazem parte da vida e do nosso aprendizado dela.
Que dói, dói. Ah! Isso não posso negar!
Dói no orgulho, principalmente. E quanto mais gente envolvida, mais nosso orgulho dói. Portanto, o humilhante não é cair, mas permanecer no chão enquanto a vida continua seu curso. O problema é que julgamos o mundo segundo nossa própria maneira de olhar e nos esquecemos que existem milhões e milhões de olhares diferentes do nosso.
Mas não está obrigatoriamente errado quem pensa diferente da gente só porque pensa diferente. E nem obrigatoriamente certo. Todo mundo é livre de ver e tirar suas próprias conclusões sobre a vida e sobre o mundo. Às vezes acertamos, outras erramos. E somos normais assim. Então, numa discussão, numa briga, pare um segundo e pense: “e se eu estiver errado?” é uma possibilidade na qual raramente queremos pensar.
Nosso “eu” nos cega muitas vezes. Nosso ciúme, nosso orgulho e até, por que não, nosso amor. Não vemos o lado do outro e nem queremos ver. E somos assim, muitas vezes injustos tanto com o outro quanto com a gente mesmo, já que nos recusamos a oportunidade de aprender alguma coisa com alguém.
E é porque tanta gente se mantém nessa posição que existem desavenças, guerras, separações. Ninguém cede e as pessoas acabam ficando sozinhas.
E de que adianta ter sempre razão, saber de tudo, se no fim o que nos resta é a solidão? Vida é partilha. E não há partilha sem humildade, sem generosidade, sem amor no coração. Na escola, só aprendemos porque somos conscientes de que estamos lá porque não sabemos ainda; na vida é exatamente a mesma coisa. Se nos fecharmos, se fecharmos nossa alma e nosso coração, nada vai entrar. E será que conseguiremos nos bastar a nós mesmos? Eu duvido. Não andamos em cordas bambas o tempo todo, mas às vezes é o único meio de atravessar. Somos bem mais resistentes do que julgamos; a própria vida nos ensina a sobreviver, viver sobre tudo e sobretudo.
Nunca duvide do seu poder de sobrevivência! Se você duvida, cai. Aprenda com o apóstolo Pedro que enquanto acreditou, andou sobre o mar, mas começou a afundar quando sentiu medo.
Então, afundar ou andar sobre as águas? Depende de nós, depende de cada um em particular. Podemos nos unir em força na oração para ajudar alguém, mas só esse alguém pode decidir a ter fé, força e coragem para continuar essa maravilhosa jornada da vida.

terça-feira, 9 de setembro de 2008

"A NATUREZA HUMANA ESTÁ EM CRISE"

Ser natural passou a não ser natural. Ser natural está em crise.
Quanto mais civilizados estamos, menos somos naturais. Muito se fala em fórmulas naturais prá isso ou aquilo. Em época que mais se fala em natureza, mais distantes estamos dela, com seus segredos, processos, sua glória e crueldade.
Mil artifícios para ser mais alto, mais magro, mais liso, mais firme, mais louro, mais moreno, mais...
Também as cabeças tem suas artimanhas para exercer o poder do pensamento, meditação de todos os tipos, cura pela mente, pensar positivo pode trazer fortuna, a tão sonhada "felicidade", casamento... E eu pergunto: o que mais?
Em toda sorte de relacionamentos e amores infiltra-se de um lado a conceitualização, e foge pelo outro, o bom senso. Também ou sobretudo na educação das crianças. Perplexos diante das mil teorias que nos batem à porta em toda a mídia, e a proliferação de consultórios com todo tipo de novas terapias - nem sempre fundamentadas - , estamos nos convencendo de que ter e criar filhos também não é lá tão natural.
Alimentados com duvidosas idéias, passamos do extremo antigo, de achar que criança não pensa, ao outro extremo: criança é complicação e nos tiraniza. Receitas de como tratar do bebê ao adolescente atormentam gerações de pais aflitos.
Esquecemos o melhor mestre: o bom senso. A escuta do que temos no nosso interior, aquela coisa que, ás vezes, pode parecer antiquada chamada intuição, lembram? Claro que para isso precisamos ter bom senso, e uma vóz de dentro de nós para ser ouvida - não o eco das propostas estranhas que nos são apresentadas.
Ou cada vez que o bebê chorar, a criança ficar menos ou mais ativa, vamos procurar um especialista. Para que ele nos ensine a segurar o bebê, a dar a mamadeira, a cortar a unha, a olhar no olho, aconchegar ao peito, enfim, a amar a criança nossa de cada dia.
É que, além de aflitos e desorientados pelo excesso de informação inútil, somos muito superficiais. Falta-nos o hábito de observar e refletir. Assutados com responsabilidade, escolha e decisão, despreparados como adolescentes, nos desviamos do espelho que faz olhar para dentro de nós. Cada vez mais amadurecemos tarde ou mal. Somos crianças tendo crianças.
O medo de pensar para decidir é medo de encontrar a ponta do fio na confusão do novelo, e puxando por ela, ver tudo se desmontar.
Mas talvez fosse bom: poderíamos recolher os cacos e recomeçar. Criar uma estrutura mais natural e firme do que essa em que nos fundamos e, baseados nela, dar aos filhos uma mensagem
tranquila e positiva, que não está em livros nem nos consultórios dos especialistas.
Crise é bom para fazer pensar, ou repensar muita coisa. Por exemplo, que a gente está vivo; tem responsabilidades; pertence a um grupo ou vários, pelo menos a uma família; está imerso num círculo de afetos ou num meio profissional. Lá influencia e é influenciado, é um pedacinho da humanidade, existe como ser pensante, atuante, e todos os "antes" que a gente queira acrescentar.
Isto é, ninguém vive como objeto passivo, mas inevitavelmente faz diferença: o que é de um lado muito bom, é de outro, terrível. Susto bom esse, pois nos mostra que não fugindo demais das responsabilidades a gente pode modificar as coisas. Não é preciso mover montanhas: pode-se valorizar alguém, escutar uma palavra, transmitir confiança ou mostrar afeto.
Talvez essa seja uma das nossas dificuldades em sermos naturais: esperamos grandes milagres, analisamos complexas terorias, engolimos informações indigestas, nos acostumamos até com o que não presta, pura banalização das coisas cotidianas, muitas vezes, nada banais. Daí, aflitos queremos que a teoria na prática sempre funcione.
Como nem sempre funciona, abrem-se manuais, criam-se novas e mirabolantes fórmulas, fazem-se cursos e mil cursinhos para aprender a ser gente e lidar com o que é humano.
Tudo isso - moderno e antigo, teórico e concreto - só vai adiantar na medida em que construir sobre o indipensável alicerce da reflexão, da seriedade, da integridade. Os nossos alicerces, é claro.
Luciana da Silva
Psicóloga

domingo, 7 de setembro de 2008

SINTONIZADOS COM A VIDA.

Luciana da Silva
Psicóloga_CRP: 06/73261

Um dos mais delicados dons que podem surgir de nosso interior é a sintonia. Com ela aprendemos a estar genuinamente presentes na vida.
Os contemplativos dizem que este momento, é o momento. Tudo o que realmente se tem é o agora. É o único ponto de ligação entre nós e a vida.
Muitos de nós não estamos realmente aqui. Estamos desconectados da vida que acontece agora. O passado e o futuro, por exemplo, são bons lugares para visitarmos através de nossa mente e imaginação. Á meu ver, reviver o passado é perder o presente.
Eu mesmo em muitos momentos, já me peguei frequentemente preocupada, porém, com o futuro, com onde e como eu passaria os próximos momentos e fases de minha vida. Projetava-me para um tempo não vivido, preparando-me para viver.
Nosso olhos ficam tão focalizados nos objetivos, que esquecemos de nos maravilhar com a presença de uma rosa.
Há uma frase que diz: "A vida é o que acontece e passa, enquanto você está fazendo outros planos..."
Essa idéia, traz-me de volta à realidade do momento e a refletir uma : O que faz você pensar que a vida acontece no palco do amanhã? Ela não é um ensaio. Ela é. Viva agora!
Gastamos muito mais tempo do que pensamos revivendo a história ou planejando o futuro. Isso é em parte importante, mas quando vivemos em tais reinos, investindo a maior parte de nossa consciência lá, não vivemos o momento presente de forma profunda. Perdemos contato com nós mesmos.
Depois de algum tempo, esse distanciamento cria uma sensação de aborrecimento psíquico, mesmo que vivamos uma vida agitada, com objetivos, cheia de gente, eventos e lugares. O aborrecimento vem da falta de sintonia e de uma desconexão com o lugar onde a vida é mais vital e real: o Agora.
O tempo não é uma linha reta por meio da qual viajamos, mas um ponto profundo onde habitamos. Pode ser difícil tentar relacionar-se com om tempo. Hoje em dia, ele exerce sobre nós uma pressão quase constante. Ele nos empurra; organizamos nossa vida de acordo com ele. Um dos grandes males de nosso tempo é a de viver de acordo com o tempo em vez de viver no tempo.
Há duas palavras para designar o tempo: chronos e kairos . Quando o chronos domina, vivemos de acordo com o tempo. A vida é vivida como uma cronologia, como algo que acontece em sequência. Essa é uma forma linear de pensar o tempo. Nosso coração, por vezes, entra nesse . Ora, se até dizemos que nosso coração "bate".
Por outro lado, quando é o kairos o dominante que designa nosso tempo, vivemos no tempo, em seu ponto profundo. A vida é vivida como oportunidade. O kairos é cheio de tempo, tempo verdadeiro. Ele exige que vivamos no tempo tão completamente que as possibilidades da vida abrem-se para nós.
A transformação emocional nos faz capazes de mudar de chronos para kairos. Passamos a tocar mais uma vez o imediato da vida. Entregamo-nos ao momento para descobrir o tesouro de ser.
No livro, "O abandono à Divina Providência, de Jean-Pierre de Caussade, ele diz que a missão mais importante da alma é procurar e aceitar o momento presente: "O momento presente está sempre fluindo com riquezas imensuráveis, muito mais do que você pode abarcar".

Seria a isso que Willian Blake se referia quando escreveu Profecias da Inocência?

"Para ver um mundo em um grão de areia
E o paraiso em uma flor silvestre
Guarde o infinito na palma de sua mão
E a eternidade em uma hora."

Existem três estágios na consciência contemplativa, ou sintonia. Primeiro ouvimos as palavras, mas não a melodia de uma música. Assim somos muitos de nós. Conseguimos compreender a exterioridade. Sabemos as respostas certas, as frases corretas, o comportamento apropriado e as palavras para a vida. Vivemos mecanicamente, escolhendo as palavras, desatentos à profundidade da melodia que flui interiormente. Nesse nível, estamos inclinados a viver de acordo com o tempo, tão espelhados em chronos que nem ao menos percebemos que existem kairos no mundo. Porém, ao ampliarmos nossa sintonia com a vida, passamos a ouvir as palavras e a melodia. Despertamos para as coisas íntimas, a vida interior, para a gloriosa canção da alma. Começamos a descobrir um novo horizonte de consciência que nos põe em contato com o aqui e agora. Paramos de vez em quando para ouvir a profunda música que toca dentro e em volta de nós.
Finalmente, no terceiro estágio de sintonia, nos tornamos a música. Ao entrarmos no nível mais profundo de sintonia, deixamos de ouvir a música e nos tornamos a música. Tornar-se música é o ápice do ser. Isso acontece quando existimos no agora com tal abertura e sinceridade que nos fundimos com o momento, com a presença escondida nele.
Assim, podemos passar pelos três estágios, de sintonia em uma única hora, ou nunca passar dom primeiro estágio por toda a vida. Há dias em que ouço apenas as palavras. Há dias em que ouço a música. Meus momentos de ser música, entretanto são raros. Quando experimentamos esses momentos, eles nos deixam com a sensação de que é assim que a vida deve ser.

O QUE É, O QUE É... (GONZAGUINHA)

("A música do meu blog...")
Viver e não ter a vergonha de ser feliz
Cantar, e cantar, e cantar
A beleza de ser um eterno aprendiz
Ai meu Deus, eu sei (eu sei)
Que a vida devia ser bem melhor e será,
Mas isso não impede que eu repita...
É bonita, é bonita, é bonita

E a vida, e a vida o que é diga lá meu irmão
Ela é a batida de um coração
Ela é uma doce ilusão, ê ô
E a vida, ela é maravilha ou é sofrimento
Ela é alegria ou lamento
O que é, o que é meu irmão
Há quem fale que a vida da gente é um nada no mundo
É uma gota, é um tempo que nem dá um segundo
Há quem fale que é um divino mistério profundo
É o sopro do criador numa atitude repleta de amor
Você diz que é luta e prazer
Ele diz que a vida é viver
Ela diz que melhor é morrer
Pois amada não é, e o verbo é sofrer
Eu só sei que confio na moça
E na moça eu ponho a força da fé
Somos nós que fazemos a vida
Como der ou puder ou quiser
Sempre desejada
Por mais que esteja errada
Ninguém quer a morte
Só saúde e sorte
E a pergunta roda
E a cabeça agita
Eu fico com a pureza da resposta das crianças
É a vida, é bonita, é bonita.
(Refrão)

sábado, 6 de setembro de 2008

VOCÊ APRENDE... WILLIAN SHAKESPEARE

Para refletir e VIVER!!!

terça-feira, 2 de setembro de 2008

HABITANDO A ESCURIDÃO DE NOSSA ALMA...

Eu disse à minh'alma: fica tranquila e deixa que a escuridão desça sobre ti...


T.S. Eliot

Lí hoje um trecho de um livro Raízes da Contemplação, de T.S. Eliot, escritor americano, que em muito me inspirou para escrever esta reflexão. Em suas palavras ele dizia:


"se uma pessoa que chegou á escura noite de seu interior, se deixar levar pela impaciência 'vai fugir das trevas e fazer o máximo para embriagar-se com a primeira luz que aparecer'. É essa minha vontade. A idéia de permanecer nas trevas me é estranha. Sou uma pessoa que procura a luz, sou impaciente nessa procura. Mas será que procurar a luz, a verdadeira luz, não o produto de uma imitação, só acontece depois de habitar por algum tempo as trevas?"



A partir da reflexão de Eliot, fiquei por alguns instantes quieta intrigada, instigada a refletir sobre o habitar por algum tempo as trevas...
Quando permanecemos quietos na mudez da verdade nua, descansando de olhos bem abertos em sinal de simples alerta, atentos á escuridão que nos confunde, uma paz sutil e indefinida começa a nos envolver e a ocupar-nos com uma profunda e inexplicável satisfação... O que será? É difícil dizer, mas sentimos que de alguma forma somos somados á uma vontade, á algo absolutamente maior que nós mesmos...


Para mim, esta escuridão está parcialmente associada á palavra DÚVIDA. Sentimo-nos por vezes, envolvidos em um terrível e silencioso questionamento que não conhece nenhuma resposta, apenas dúvidas. Isso me faz pensar sobre uma criança, que com todo seu vigor, chutou uma bola para o ar e ela nunca mais voltou. Pode ser que ela não tenha visto que sua bola tenha ficado presa, aos galhos de uma árvore, ou quem sabe junto ao telhado de alguma casa. Mas o que acontece é que ela fica exatamente ali, parada, assombrada, esperando.


Assim somos muitos de nós, que vivemos como se a vida estivesse suspensa. Continuamos esperando que as respostas caiam do céu, mas elas não caem.


Deveria haver mais gravidade em nossa espera, mais lógica, talvez?


A escuridão é excruciante. Na verdade, outra palavra que se soma á escuridão que agora refletimos é a tensão. Nessa caverna escura de nosso ser, somos levados a contatos mais agudos com nossas próprias dores. À noite, sombras que não vemos à luz do dia brincam na parede. Nesses momentos vemos, delineados nas paredes de nossa alma, nossas mágoas, nossos conflitos, nossas ansiedades e como somos incompletos.


Gostaríamos de nos livrar da escuridão, abrirmos o casulo, ocuparmo-nos, fazer algo que tirasse nossa mente de nosso "sofrimento" agarrarmo-nos a alguma resposta fácil que camuflasse as sombras. Mas não adianta! Temos lá dentro de nós, á espreita, a sensação de que há um mistério revelando-se na escuridão que não conseguirei alcançar de nenhuma outra maneira...

LUCIANA DA SILVA

Psicóloga-CRP: 06/73261

DIZER SIM?... OU DIZER NÃO?

Se me perguntassem: "qual a história mais difícil de escrever?", certamente eu responderia: "a nossa própria história", muitas vezes complexa, obscura, inocente, ou perversa - muito mais do que as histórias de ficção.

Por muitas vezes, refleti sobre a idéia de dizer sim ou dizer não a nós mesmos, aos outros, á vida, á Deus, como parte essencial da escrita de nossa própria vida - com os naturais intervalos de fatalidades que não se pode evitar, mas que precisam ser enfrentadas.

Sempre acreditei naquela história de que, na vida temos mesmo é que pegar o touro pelo chifre, ou seja, enfrentar a tudo e a todos, custe o que custar, mas, inúmeras vezes fiquei simplesmente deitada e ele me pisoteou com gosto. Afinal somos apenas humanos.

Nessa nossa difícil história, dizer "sim" ao negativo, ao sombrio, ao invés de dizer "sim" ao bom, ao positivo, é o desafio maior. Pois a questão é saber a hora de pronunciar uma outra palavra, de assumir uma ou outra postura.

O risco de errar pode significar inferno ou paraíso.

Também descobri (ou invente?) isso de existir um ponto cego na perspectativa humana, em que não se enxerga o outro mas apenas um lado dele: seu olho vazado, sua boca cerrada, seu coração ferido, amargurado... Sua alma árida, ah... O ponto cego das nossas escolhas vitais é aquele onde a gente pode sempre dizer "sim" ou "não", e nossa ambivalência não nos permite enxergar direito o que seria melhor na hora: depressa, agora.

O ponto mais cego é onde a gente não sabe quem disse "não" primeiro. E todos, ou os dois deviam naquele momento ter dito "sim".

Viver é cada dia se repensar: feliz, infeliz, vitorioso, derrotado, audacioso, ou com tanta pena de si mesmo. Não é preciso inventar algo novo. Inventar o real, o que já existe, é conquistá-lo: é o dom dos que não acreditam só no comprovado, nem se conformam com o rasteiro.

Nosso drama é que às vezes a gente joga fora o certo e recolhe o errado. Da acomodação brotam fantasmas que tomam a si as decisões: quando ficamos cegos não percebemos isso, e deixamos que a oportunidade escape porque tivemos medo de dizer o difícil "sim".

O "não" é também um ponto cego por onde a gente escorre para o escuro da resignação.

O ponto mais cego de todos é onde a gente nunca mais poderá dizer "sim" para si mesmo. E aí tudo se apaga. Mas com o "sim" as luzes se acendem e tudo faz sentido.

Dizer "sim" a si mesmo pode ser mais difícil do que dizer "não" a uma pessoa amada: é sair da acomodação, pegar qualquer espada - que pode ser uma palavra, um gesto, ou uma transformação radical, que custe lágrimas e talvez sangue - e sair á luta.

Dizer "sim" para o que o destino nos oferece, significa acreditar que a gente merece algo parecido com crescer, iluminar-se, expandir-se, renovar-se, encontrar-se e ser feliz.

Isto é: vencer a culpa, sair da sombra e expor-se a todos os riscos implicados, para finalmente assumir a vida.

Fazer suas escolhas, assinar embaixo, pagar os preços... e não se lamentar demais. Porque programamos o próprio destino a cada vez, num tímido murmúrio ou num grande grito, a gente diz para si mesmo: "Sim!", "Sim!", "Sim!"...

LUCIANA DA SILVA
Psicóloga - CRP: 06/73261
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Luciana da Silva